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Goiânia,30/04/2026

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    Você iria até o inferno para resgatar seu orientador da pós-graduação?

    guiadoestudante.abril.com.br
    Você iria até o inferno para resgatar seu orientador da pós-graduação?

    Imagine que está vivendo o “céu” na sua pós-graduação: estuda na instituição dos sonhos, o professor mais renomado da área acompanha suas produções e a pesquisa segue a todo vapor. Até que, graças a um acidente, seu orientador vai parar no inferno e a missão de recuperar a alma do especialista recai sobre você e o seu rival acadêmico.


    Este é o conflito que inicia “Katábasis“, mais recente título de Rebecca F. Kuang, também conhecida como R. F. Kuang, autora da trilogia “A Guerra da Papoula” e dos livros “Babel” e “Yellowface“. A escritora tem origem sino-americana (estadunidense com raízes na China), assim como sua protagonista Alice Law.





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    R. F. Kuang durante o Festival Internacional do Livro em Edimburgo
    R. F. Kuang durante o Festival Internacional do Livro em Edimburgo (2025)Jennifer Lee/Wikimedia Commons/Reprodução

    A personagem é pós-graduanda em magia analítica na prestigiada Universidade de Cambridge, com enfoque em linguística. Desde a graduação, Alice pretendia se mudar para a Europa para ser orientada pelo exigente Jacob Grimes, o maior especialista da área, mesmo que isso custasse a adaptação de uma imigrante americana com ascendência chinesa na Inglaterra.


    Essa jornada a fez sacrificar horas de sono, o orgulho, a vida amorosa e até mesmo a sanidade. E aqui entra um alerta, caso ainda não tenha percebido: Katabásis se passa em um universo mágico. Por isso, não estranhe quando descobrir que a personagem tem um encantamento tatuado no próprio braço que a concedeu memória ilimitada – apesar de uma uma mente que se parece com um arquivo desorganizado.


    É neste contexto que seu renomado orientador morre por causa de um experimento mágico considerado simples. E a culpa do acidente talvez seja de Alice ou de Peter Murdoch, seu único parceiro de laboratório e de orientação. O pesquisador é considerado um gênio da lógica e assume o estereótipo da pessoa que não estuda e vai bem em tudo, anda com o cabelo desarrumado, o paletó desabotoado, coleciona faltas e anotações espalhadas ao vento. E, para piorar a situação da aluna, Murdoch é o seu arqui-inimigo na Academia e compete por bolsas e prestígio.


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    Curiosamente, ambos têm a mesma ideia de descer ao inferno em busca da alma de Grimes. Enquanto ela faz as marcações para realizar tal feito, o rival se “intromete” e embarca na jornada. Seus recursos são poucos: apenas um punhado de giz; registros de Dante (o Aliguieri de “A Divina Comédia“) e Orfeu (personagem da mitologia grega, que vai ao submundo para trazer a amada de volta à vida); pão Lembas, capaz de sustentar um viajante (ou estudioso) com poucas mordidas, mesmo que o sabor não seja tão bom; e a bibliografia que cada um conseguiu reunir. O preço para embarcar nessa aventura? Abrir mão de metade do tempo de vida.



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    Katábasis é uma palavra grega que significa “descida”, com grafia “Catábase” na língua portuguesa. No conjunto de mitos da Grécia, o termo é usado para se referir à ida ao mundo inferior, jornada enfrentada por nomes famosos como Odisseu, Aquiles e Eneias, além de Dante e Orfeu.


    E aqui vai um aviso para os fãs românticos: o foco do livro não é o relacionamento amoroso entre os dois personagens principais. Kuang trata, sobretudo, das contradições humanas diante de situações tensas.


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    A magia e os oito tribunais


    O inferno de Kuang não acompanha a visão ocidental de fogo, destruição, tortura e uma figura demoníaca. Ela une as mitologias grega e chinesa na construção deste mundo e cria sua versão baseada no julgamento, arrependimento e estrutura.


    A alegoria da burocracia humana é o pano de fundo dos oito tribunais possíveis para uma alma se purificar: Orgulho, Desejo, Ganância, Ira, Violência Crueldade, Tirania e o Oitavo, tão misterioso que não foi nomeado. A paisagem, apesar de arenosa e sombria, reflete o mundo dos vivos e assume uma “cara” familiar para quem o visita. No caso de Alice e Peter, o inferno é um campus universitário.


    A dinâmica da vida na graduação marca alguns dos tribunais. Para uma pessoa (chamada de “sombra” após a morte) ser absolvida dos seus pecados relacionados ao Orgulho, é enviado para uma biblioteca que tem todas as produções científicas da humanidade. O objetivo? Definir o conceito de bem a partir da teoria.



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    Já área do Desejo é caracterizada como um centro estudantil, com direito a uma melodia, uma mesa de pebolim e quartos que se assemelham a um alojamento. A prova final do último tribunal, válida para todos, era escrever uma tese contando o motivo da pessoa ter ido parar no inferno — que podia passar até por uma revisão de “pares” (outros pecadores) antes de ser enviada para aprovação.


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    O chefe deste submundo é o Rei Yama, o Misericordioso – deus da morte, julgamento e justiça do budismo, uma identidade escolhida pela protagonista. Mas ele também poderia ser conhecido como Hades, Kali ou Anúbis.


    “Alice conhecia o Rei Yama, seus pais o conheciam, todos os seus ancestrais o conheciam, temiam e reverenciavam. Ela conhecia a longa barba negra, a careta sempre presente, os olhos flamejantes e o longo manto. Conhecera-o por toda a vida.”


    “Katábasis”


    No universo do livro, o sistema de magia não funciona como na saga do bruxo Harry Potter, com varinhas e poções. Como é considerada uma área do conhecimento, os praticantes precisam ter ao menos uma graduação para serem considerados magos, além de possuir algumas bases, sendo elas:



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    • Giz: a base da magia analítica, produzida a partir de calcário e utilizada para desenhar pentagramas;

    • Paradoxos: são “falhas na realidade” construídas e defendidas pelo estudioso. O campo de pesquisa seria uma enganação voltada à própria natureza e, portanto, o mago deve convencer sua própria mente e os demais de que a visão é real;

    • Filosofia;

    • Lógica;

    • Pentagramas, que possibilitam a existência dos encantamentos;

    • Mitologias.


    Ambos os campi (dentro ou fora do inferno) contam com um mascote em comum: o gato Arquimedes, que aparece e desaparece quando bem quer. Na narrativa, conta-se que os animais, em especial os felinos, têm a habilidade de transitar entre as duas realidades, mesmo que apresente certos perigos.


    Além de procurar pela sombra de Grimes, Alice e Peter ainda precisam lidar com as criaturas de osso, cujo objetivo é acabar com qualquer forma que passe pelo inferno, e escapar da família Kripke, composta por dois magos incompreendidos pela Academia, Magnolia e Nick, e pelo filho Theophrastus, que sugam o sangue dos viajantes perdidos pela região.


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    Academicismo


    Se você acompanha as discussões do Booktok — a comunidade literária do TikTok — deve ter visto influenciadores literários gringos caracterizando a obra como “complexa demais”. Mas não é preciso ter um doutorado para entender as discussões teóricas presentes em “Katábasis”.


    R. F. Kuang é, além de tudo, uma pesquisadora. Atua como tradutora de mandarim, bolsista na Marshall Scholarship (instituição que financia bolsas de pós-graduação para jovens estadunidenses com alto desempenho estudarem no Reino Unido), mestra em Filosofia na área de Estudos Chineses por Cambridge e em Estudos Chineses Contemporâneos por Oxford. Também é doutoranda em Literatura e Línguas do Leste da Ásia na Universidade de Yale — que faz parte da Ivy League, grupo com as oito instituições de ensino superior de elite dos Estados Unidos.



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    A experiência da autora transparece na construção das ideias (tanto na cabeça de Alice, quanto as externalizadas) e nos exemplos usados para facilitar as explicações. A retórica também é um ponto forte nos debates. Immanuel Kant, Friedrich Nietzche, Santo Agostinho, Platão, Aristóteles e Sócrates são alguns dos autores “da vida real” citados nos diálogos.


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    O domínio da autora no campo teórico é tanto que ela se permite tomar a licença poética e alterar algumas informações da realidade. “Alguns dos estudiosos mencionados neste texto são pessoas reais e, salvo algumas exceções — que espero que sejam óbvias —, tentei representar com exatidão suas ideias. […] Aristóteles não usa o termo ‘verme espacial celestial’, mas é uma boa maneira de visualizar sua física. ‘Existence Is Evidence of Immortality‘, de Michael Huemer, é de 2019, mas na narrativa afirmo que foi publicado na década de 1960. Isso é fantasia, assim como a maior parte deste livro”, explica Kuang na primeira página da obra.


    Não são apenas as partes boas da vida universitária que são retratadas em “Katábasis”. A misoginia no campo da pesquisa é uma problemática que acompanha o próprio desenvolvimento acadêmico de Alice e de outras mulheres. A renúncia ao estilo de se vestir, o estigma sexual colocado em estudiosas orientadas por homens e até as cadeiras de algumas professoras também são tema de debate.


    Os impactos da relação desequilibrada com a Academia também são retratados no livro. Alice por exemplo, passa noites sem dormir, consome muita cafeína e negligencia a alimentação em prol de agilizar as pesquisas. “Alguns dias, comia apenas um pedaço de pão Lembas com café pela manhã e depois ficava tão absorta nos estudos que só se lembrava de comer de novo à meia-noite. Às vezes, conseguia adiar até mesmo o pão Lembas até bem depois do meio-dia.”


    Peter é acometido pela mesma dificuldade, potencializada pela doença de Crohn, uma inflamação crônica grave do trato gastrointestinal, que o leva a internações recorrentes e é descredibilizada pelo professor Grimes. Por conta das licenças, o docente chega até a roubar os créditos de uma pesquisa do pós-graduando. 



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    Mas para descobrir se Alice e Peter conseguiram salvar a alma do professor Grimes, vale conferir o desenrolar de “Katábasis”.




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