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Goiânia,04/04/2026

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    Mulheres negras da periferia constroem curadoria viva na exposição “Antônia Visita Pina”, em Salvador

    anf.org.br
    Mulheres negras da periferia constroem curadoria viva na exposição “Antônia Visita Pina”, em Salvador

    A periferia de Salvador se transforma em espaço de curadoria, memória viva e encontro entre gerações com a exposição “Antônia Visita Pina”, promovida pelo Instituto Audiovisual Mulheres de Odun (IAMO) em parceria com o Acervo da Laje. A mostra iniciou no dia 20 de janeiro de 2026, às 18h, no Café Pina, espaço de convivência localizado na sede do IAMO, no Quilombo do Coqueiro Grande, em Fazenda Grande 4 (Cajazeiras), e segue em cartaz até setembro, com entrada gratuita.





    Mais do que uma exposição de artes visuais, “Antônia Visita Pina” propõe uma experiência sensível e coletiva, construída a partir do encontro entre mulheres negras, suas casas, memórias e trajetórias de vida na favela. A curadoria nasce de um processo pouco convencional no circuito artístico: uma sequência de visitas que se transformou em gesto curatorial compartilhado, baseado na escuta, no afeto e na transmissão de saberes ancestrais.





    A iniciativa é fruto do diálogo entre o IAMO e o Acervo da Laje, a partir do encontro entre Viviane Ferreira, diretora criativa e de parcerias estratégicas do Instituto, e Vilma Santos e Gabriela Leandro, responsáveis pelo Acervo. O movimento inicial se deu quando Viviane visitou o Acervo da Laje e, a partir da exposição Memórias para Dona Antônia, surgiu o desejo de levar as filhas de Pina, avó de Viviane, para conhecer a homenagem dedicada à matriarca Antônia, mãe de Vilma.









    No intercâmbio de lembranças, histórias e afetos, as famílias perceberam conexões profundas entre as trajetórias das duas mulheres negras. A compreensão de que Antônia e Pina, se tivessem se conhecido em vida, seriam amigas, deu origem à ideia de levar as obras da exposição para visitar o território do Quilombo do Coqueiro Grande, fortalecendo a ponte entre favela, memória e produção cultural.





    A partir daí, o processo curatorial passou a acontecer em mão dupla: filhas de Antônia visitaram o IAMO, enquanto filhas de Pina atravessaram Salvador para mergulhar no Acervo da Laje. Juntas, construíram uma curadoria relacional, processual e compartilhada, afirmando a visita como gesto político.





    “Quando mulheres negras atravessam a cidade para se encontrar, trocar e escutar, elas constroem outra forma de curadoria. Uma curadoria que nasce do reconhecimento mútuo, do espelhamento e da decisão de compartilhar a intimidade do lar, da memória e da vida. Essa exposição é sobre presença, continuidade e sobre como nossas mães e avós seguem nos ensinando a existir em celebração”, afirma Viviane Ferreira.





    A curadoria da exposição contou com a participação direta das filhas das matriarcas homenageadas e assistência curatorial de Viviane Ferreira, Gabriela Leandro e Renata da Silva Cardoso, além da expografia assinada por Caroline Souza. As obras foram selecionadas ao longo do processo coletivo e incorporam elementos simbólicos do contexto estético, social e espiritual de Antônia e Pina, reafirmando o território periférico como espaço de memória, presença e legado.





    Para Renata da Silva Cardoso, a mostra reafirma metodologicamente a legitimidade das experiências de mulheres negras da favela como produção de conhecimento. Ao colocar a memória doméstica, as relações familiares e o cotidiano no centro da curadoria, a exposição desloca hierarquias históricas e reafirma esses saberes como fundamentais na escrita da história do país.





    Fotografias, canções, objetos, narrativas orais e materialidades emergem do processo, revelando marcas subjetivas transmitidas entre gerações. A exposição evidencia como o cuidado, a fé, o trabalho, o conhecimento sobre as folhas, as rezas e os ofícios tradicionais estruturaram estratégias de sobrevivência e resistência cotidiana nas periferias.





    A casa, nesse contexto, deixa de ser espaço privado e se torna lugar de exposição, encontro e produção de saber, reforçando a favela como território de criação, memória e potência cultural.





    Para Vilma Soares, filha de Dona Antônia, a circulação da exposição na sede do IAMO fortalece a continuidade da memória entre territórios periféricos e gerações.





    “Ainda estamos em luto, mas a memória da minha mãe segue viva. Ver Dona Antônia ocupando outro espaço é uma forma de honrar sua história. Essa exposição cuida da memória das nossas mães e avós, mulheres negras que sustentaram famílias, resistiram ao racismo e à fome e, por muito tempo, não foram ouvidas”, destaca.





    Suely Soares, também filha de Dona Antônia, ressalta o caráter afetivo e coletivo da mostra.





    “Essa exposição une famílias e fala das nossas mães com carinho e respeito. É saudade, mas uma saudade que se transforma em celebração. Quem visita conhece a história de duas mulheres negras fortes, que deixaram legados importantes”, afirma.





    Com “Antônia Visita Pina”, o Instituto Audiovisual Mulheres de Odun reafirma seu compromisso com a valorização de narrativas produzidas por mulheres negras da periferia, a preservação de memórias historicamente silenciadas e a criação de espaços culturais vivos na favela, onde arte, território e ancestralidade se encontram.


    O post Mulheres negras da periferia constroem curadoria viva na exposição “Antônia Visita Pina”, em Salvador apareceu primeiro em ANF - Agência de Notícias das Favelas.




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