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Goiânia,04/04/2026

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    Reggae feito na periferia conecta Salvador ao circuito global da música negra

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    Reggae feito na periferia conecta Salvador ao circuito global da música negra

    Mais de meio século após ecoar das ilhas do Caribe para o mundo, o reggae segue se reinventando. No Brasil, especialmente nas periferias de Salvador, na Bahia, o gênero encontra novos timbres, tecnologias e narrativas que reafirmam sua força como expressão política, espiritual e cultural do povo negro. Inspirado pelo legado de artistas jamaicanos como Bob Marley, Toots & the Maytals e The Congos, o reggae produzido na capital baiana conecta ancestralidade e inovação, projetando o país como um dos centros do novo movimento global do gênero.





    Conhecida como a “primeira capital do Brasil” e frequentemente apontada como a “cidade mais negra fora da África”, Salvador abriga hoje um dos principais pólos do reggae brasileiro. A influência que cruzou o Mar do Caribe nos anos 1960 encontrou solo fértil nas periferias soteropolitanas, onde a musicalidade afro-baiana dialoga com o ska, o rocksteady, o dub e o ragga jamaicano. É desse território que emerge a trajetória do cantor e compositor Duda Diamba, referência do reggae nacional e cria da cena cultural baiana.





    Com quase 30 anos de carreira, Duda apresenta uma nova fase artística com o single “Salvamor” (2025), marcando a primeira vez que o reggae aparece de forma central em sua discografia solo. Produzida em parceria com Vinícius Casqueiro, Van Cerqueira e Tony Errejota, a faixa une a batida clássica do reggae às tecnologias criativas e ferramentas digitais, sem perder o vínculo com a origem periférica do som produzido na Bahia.





    Fotos: Renata Larroyd




    “Trabalhei para que a música alcançasse um nível de timbragem alinhado ao que há de mais contemporâneo no reggae mundial. Foram cerca de dois meses de trabalho intenso, utilizando inclusive inteligência artificial para acomodar melodia, harmonia e voz, mas sempre preservando a conexão com o som da Bahia e com o reggae que a gente faz aqui”, explica o artista.





    Reggae, tecnologia e identidade nas periferias





    Inspirado pelas composições de Chronixx, jamaicano indicado ao Grammy pelo álbum Chronology (2017), Duda Diamba resgata a essência do reggae dos anos 1960, mas inverte o eixo tradicional da crítica social. Em “Salvamor”, a cidade de Salvador surge como espaço de cura, afeto e pertencimento, exaltada em versos como “o melhor remédio para curar e superar a dor: Salvador, Salvamor”.





    A música preserva o caráter espiritual e político do reggae, ao mesmo tempo em que se atualiza esteticamente, conectando Salvador ao circuito global do gênero. O impacto foi imediato: a faixa ganhou destaque durante o réveillon em Taipu de Fora, no sul da Bahia, sendo apontada como “música da edição” logo em sua estreia.





    “Quando falamos da Bahia na música, falamos desse estado de espírito que nasce nas periferias, na estética do povo baiano. Quem vem de fora se encanta com a cultura, a comida, a música, e no fim sempre chega a Salvador, que fecha o ciclo com o Carnaval e toda essa magia que carregamos no peito”, afirma Duda.





    Das favelas para o mundo: o reggae feito na Bahia





    A relação do reggae com o Brasil atravessa décadas e gerações. Desde a popularização do gênero nos anos 1980, quando bandas como Legião Urbana dialogaram com sua estética sonora, o reggae se consolidou como linguagem musical das periferias, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Na Bahia, esse movimento ganhou identidade própria, marcada pelo baixo pulsante, letras conscientes e forte ligação com a vivência nas favelas.





    Após o lançamento do álbum Pulverizando Beleza (2025), Duda Diamba consolida sua trajetória solo depois de quase três décadas à frente da banda Diamba. Autor de músicas como “Pardopatia”, “Chama Chama” e “Mais Uma Vez (So Long)”, o artista também assina a versão em reggae do hino do Esporte Clube Bahia, reforçando sua relação com o território e com a cultura popular.





    Mesmo reconhecendo as dificuldades históricas de valorização de artistas negros, especialmente aqueles oriundos das periferias, Duda reafirma sua crença na potência do reggae como ferramenta de resistência. “Bob Marley se tornou um dos artistas mais relevantes do planeta, mesmo enfrentando barreiras. No Brasil, nomes como Edson Gomes ainda lutam por reconhecimento, mas sigo fazendo esse som porque acredito na força da música para conectar gerações e contar histórias de identidade”, destaca.





    Amor, resistência e pertencimento





    Em “Salvamor”, Duda Diamba transforma o amor pela cidade natal em matéria-prima artística. Mesmo vivendo atualmente em São Paulo, é da memória afetiva de Salvador, das favelas e da beira do mar baiano que nasce a canção. Para o artista, fazer reggae é um ato político e íntimo, que carrega identidade, pertencimento e verdade.





    “Meu RG começa com 071, isso diz muito sobre quem eu sou. Essa música não é sobre tendência, é sobre sinceridade. É sobre transmitir a Bahia, a favela, a periferia e a minha história através do reggae”, conclui.






    O post Reggae feito na periferia conecta Salvador ao circuito global da música negra apareceu primeiro em ANF - Agência de Notícias das Favelas.




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