Pé de moleque veio de “pede, moleque”? Conheça a origem destes doces juninos
Bandeirinhas coloridas, fogueira, quadrilha e muita comida boa. As festas juninas são um verdadeiro mergulho na cultura brasileira, mas você já parou para pensar de onde vieram os doces que marcam essa época do ano tão deliciosa?
Por trás de cada colherada de canjica, de cada mordida na maçã do amor ou no pé de moleque e até de cada gole de quentão existe uma história cheia de curiosidades, encontros culturais e personagens que ajudaram a construir tradições que atravessam gerações. Então, prepare-se para viajar no tempo e descobrir a origem de quatro clássicos que não podem faltar nas festas juninas.
Canjica: uma herança indígena que conquistou o Brasil

Presença garantida nas mesas juninas, aquela canjica feita de grãos brancos mergulhados em um caldo de leite tem raízes muito mais antigas do que as próprias festas. Sua origem está ligada aos povos indígenas que habitavam o território brasileiro antes da chegada dos portugueses e que já cultivavam milho séculos antes de 1500.
Ao longo do tempo, a receita foi incorporando influências de diferentes culturas. Segundo o Novo Dicionário Aurélio, o próprio nome “canjica” pode ter origem na palavra “kanjika”, da língua quimbundo, falada em Angola. Por isso, muitos pesquisadores acreditam que os africanos também tiveram papel importante na difusão e transformação do prato.
Com a expansão das rotas pelo interior do país, acredita-se ainda que a receita tenha sido levada para diferentes regiões pelos bandeirantes entre os séculos 16 e 17. Hoje, ela é encontrada em todo o Brasil e recebe até outros nomes, como mungunzá em boa parte do Nordeste. Que tal uma receita de canjica vegana para entrar no clima junino?
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Maçã do amor: uma invenção paulista que ganhou os arraiais

Poucos doces são tão fotogênicos quanto a maçã do amor. A combinação da fruta com a clássica calda vermelha brilhante se tornou símbolo das festas juninas, mas sua história reserva uma surpresa.
Segundo o “Guia dos Curiosos”, de Marcelo Duarte, a versão brasileira da maçã do amor foi criada em São Paulo pelo catalão José Maria Farre Angles. Ele chegou ao Brasil com a família em 1954 e, enfrentando dificuldades financeiras, desenvolveu o doce no ano seguinte para complementar a renda.
A ideia era simples: aproveitar a abundância de maçãs disponíveis no país e cobri-las com uma calda vermelha cristalizada. As unidades eram vendidas em feiras, praças e festas populares, mas o sucesso nacional veio em 1960, quando Angles participou da primeira edição da UD, uma feira de utilidades domésticas.
O nome também tem uma história curiosa. Em uma reunião familiar, foram descartadas sugestões como “maçã caramelada” e “doce cristalizado”. O próprio José Maria sugeriu “maçã do amor”, inspirado na maçã associada à história bíblica de Adão e Eva.
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Embora existam registros de uma versão norte-americana chamada “candy apple”, criada por William W. Kolb em 1908, os descendentes de Angles afirmam que a combinação da calda vermelha com o palito foi uma inovação de seu avô, o que garantiu identidade própria ao produto e permitiu o registro da patente no Brasil.
Ficou com vontade? Vale provar uma receita de maçã do amor tradicional e trazer o arraial para dentro de casa.
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Pé de moleque: o doce que nasceu na estação de trem

O pé de moleque é daqueles doces que parecem existir desde sempre. Mas, de acordo com o “Guia dos Curiosos”, sua história começou oficialmente em 1936, na estação ferroviária da cidade mineira de Piranguinho.
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A protagonista dessa história foi Matilde Cunha Torino, esposa do chefe da estação, Modesto Torino. Ela preparava doces caseiros e os vendia por uma pequena janela na plataforma onde os passageiros aguardavam os trens.
O sucesso era tão grande que, segundo a tradição local, quando as vendas estavam animadas, Modesto encontrava um jeito de atrasar um pouco a partida do trem para que mais pessoas comprassem os quitutes.
Com o passar dos anos, a filha do casal, Alcéa, abriu uma barraca às margens da rodovia BR-459 para continuar o negócio. A famosa Barraca Vermelha existe até hoje e se tornou um ponto turístico da região.
A origem do nome também é cercada por uma história divertida. Diz a tradição que Matilde deixava os doces esfriando na janela de casa. Atraídas pelo cheiro irresistível, crianças da vizinhança costumavam pegar pedaços escondidas. Quando flagrava a cena, ela repreendia os pequenos com a frase: “Não rouba, pede, moleque!”. Com o tempo, a expressão teria inspirado o nome da guloseima. Vai aí um pé de moleque com chocolate?
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Quentão: do inverno europeu às festas brasileiras

Embora seja uma bebida tipicamente associada às festas juninas, o quentão nasceu de uma adaptação cultural. Sua origem remonta ao “mulled wine”, uma bebida europeia preparada com vinho aquecido, mel e especiarias. A receita já era conhecida desde os tempos do Império Romano e era consumida especialmente durante os meses frios.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, trouxeram o costume. Porém, a abundância da cana-de-açúcar durante o período colonial fez com que o vinho fosse substituído pela cachaça em muitas regiões do país. Assim surgiu a versão que hoje conhecemos como quentão.
Em algumas partes do Sudeste, as duas bebidas convivem até hoje durante as festas juninas: o quentão feito com cachaça e o vinho quente preparado com vinho tinto. Em certos lugares, inclusive, os dois nomes são usados como sinônimos.
Segundo o folclorista Amadeu Amaral, na obra “O Dialeto Caipira” (1920), a palavra “quentão” surgiu no interior paulista. O termo já aparecia em relatos de festas de São João na segunda metade do século 19.
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Ao longo do século 20, com o crescimento das festas juninas em todo o país, a bebida passou a ser tratada como item indispensável dos arraiais, consolidando seu espaço na cultura popular brasileira. Vale até uma versão sem álcool, como esta receita de quentão. Que tal provar? E viva São João!
*Todas as receitas citadas foram publicadas no site da revista CLAUDIA.
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