Espetáculo inédito “A hora em que não sabíamos nada da gente” desperta conexões silenciosas e celebra 80 anos da UFBA
Em celebração aos 70 anos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e aos 80 anos da instituição, o espetáculo “A hora em que não sabíamos nada da gente” estreou no Teatro Martim Gonçalves e fez um convite ao espectador: assistir, ficar em silêncio e conversar com os seus ‘divertidamentes’ ou seja, com as suas emoções. A obra é uma releitura do escritor austríaco Peter Handke, com direção de George Mascarenhas e assistência de Deborah Moreira. No palco há a simulação de uma praça, os 20 atores performam através da mímica e de coreografias atuais com proximidade ao comportamento da sociedade e entrelaçadas ao contexto soteropolitano.
A praça é um lugar estático, mas de muito movimento e nela até o silêncio pode ser barulhento. É ponto de encontro, de permanência, de abrigo, de chegadas e partidas. É onde todo tipo de situação pode acontecer: encontrar com os amigos pra jogar conversa fora e conhecer gente diferente, uma pessoa bêbada dormindo no banco após ingerir “água que passarinho não bebe”, uma noiva perdida e desnorteada, tem pessoas perseguidoras e outras flerteiras, casais enamorados em uma noite escura… Vai dizer que não?

Observando aquela praça em cena, eu me lembrei das outras tantas aqui de Salvador e acredito que poderia ser qualquer uma delas. Se você observar a pracinha do seu bairro vai encontrar algum tipo de movimento, desde o silêncio que varia a depender da hora do dia ao ambulante com suas mercadorias, tem crianças brincando, alguém com caixinha de som, às vezes tem um ponto de ônibus, um grupo de idosos no final da tarde jogando dominó que “é de lei”… Alguma coisa você vai encontrar. É um lugar público e você pode, de repente, começar a conversar com um desconhecido e ele se tornar seu amigo ou não, apenas falar sobre coisas triviais e se você se sentir à vontade, pode até desabafar já que provavelmente nunca mais verá aquela pessoa mesmo.
O espetáculo desperta memórias e sentimentos propriamente humanos como andar de patins e de bicicleta, os transeuntes até brincam com diferentes penteados no cabelo cacheado, trocam de figurino e inúmeros elementos que nós, viventes, utilizamos o tempo todo. A praça é a rua, a rua é movimento. É agonia e muita coisa ao mesmo tempo! Durante a peça, a voz não existe mas os burburinhos, gemidos, grunhidos, sons instrumentais e cotidianos aparecem… À tona lembranças e emoções, tal qual a intensidade da iluminação. Exceto pelas gargalhadas, assistir esta obra duplamente silenciosa também é um exercício. São vários elementos dizendo tudo sem utilizar a palavra. O silêncio pode ser ensurdecedor e mesmo quando nenhuma palavra é proferida, ele diz muito.
Uma praça é universal, é a mesma aqui ou em qualquer lugar do mundo. É feita de gente. Se não tem ninguém ocupando, não tem vida. Se não tem gente, não tem beleza, não tem movimento e enfeia o lugar. Por isso, é preciso e necessário que tenha gente ocupando, gente dizendo muita coisa ou não dizendo nada até porque mesmo que seja em silêncio, se diz muito.
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