Seabra celebra 137 anos entre memórias, afetos e transformações na Chapada Diamantina
Nesta quarta-feira (14), o município de Seabra, na Chapada Diamantina, celebrou 137 anos de história. Conhecida como “Cidade das Rosas” e considerada o centro geográfico da Bahia, a cidade carrega memórias construídas por gerações de moradores que acompanharam as mudanças urbanas, culturais e sociais do território ao longo das décadas.
Fundada em 1889, inicialmente em um povoado chamado Campestre, a cidade recebeu o nome em homenagem a José Joaquim Seabra (1855–1942), conhecido como Doutor Seabra, que governou a Bahia em dois períodos: entre 1912 e 1916 e, posteriormente, entre 1920 e 1924.
Com cerca de 46 mil habitantes, Seabra tornou-se um dos principais polos comerciais da Chapada Diamantina, especialmente após a consolidação da ligação rodoviária com a BR-242, eixo que conecta a região à Salvador–Brasília. A circulação de mercadorias e visitantes impulsionou o crescimento econômico e transformou a cidade em ponto de encontro entre municípios vizinhos, fortalecendo o comércio regional e ampliando o desenvolvimento do território.
As transformações da cidade também ficaram marcadas na memória dos moradores mais antigos. A professora e educadora aposentada Nivan Araújo, conhecida popularmente como Tia Nivan, lembra das dificuldades estruturais da Seabra que encontrou em 1964.
“Não tinha asfalto. Não existia Embasa naquela época; as pessoas saíam com os jegues vendendo água. A luz elétrica funcionava só até as 10 horas da noite, era motor”, relembra.

Além das mudanças urbanas, ela destaca que as relações entre as pessoas também passaram por profundas transformações ao longo do tempo.
A professora aposentada Maria Auxiliadora Sá Teles recorda que antigas casas de família deram lugar a pontos comerciais e que diversos espaços tradicionais da cidade passaram por reformas e modernizações.
“As antigas casas de comércio foram modernizadas, casas de família foram transformadas em pontos comerciais e até a Igreja de São Sebastião foi reconstruída em outro formato”, relata.
Segundo ela, outra mudança simbólica foi a diminuição das chamadas rosas-penha, espécie que se adaptava facilmente ao clima local e ajudou a consolidar o título de Cidade das Rosas.
“Por muitos anos, foi o adorno dos jardins; em toda casa tinha não um, mas vários pés de rosa. Essas histórias têm muito valor porque revelam uma Seabra humana, afetiva e cheia de personagens marcantes. Quando uma cidade perde suas histórias pequenas, ela perde parte da própria alma”, afirma.

No campo das memórias afetivas, o fotógrafo e morador da cidade Smitson Oliveira lembra da época em que a feira livre acontecia na atual Praça dos Eventos, antigamente conhecida como Praça do Pé de Cajá.
“Havia uma relação de compadrio. As pessoas se conheciam, iam bater papo, saber das notícias: ‘fulano morreu’, ‘fulano casou’. Isso existia muito. Hoje ainda existe, mas bem menos, porque a população cresceu, a cidade cresceu e, naturalmente, as pessoas acabam perdendo esses relacionamentos”, conta.

Outro símbolo importante da cidade é a Igreja do Bom Jesus, construída pelo frade franciscano Frei Justo Venturi. De acordo com relatos presentes no documentário Pedras que Contam Memórias, a construção foi erguida com apoio popular, por meio de doações e do trabalho coletivo de moradores que ajudaram o religioso na missão de construir um dos principais patrimônios do município.
Além da igreja, Frei Justo também participou da criação de espaços que se tornaram referências para a população, como o Centro Catequético, o Centro de Treinamento e Lazer (CTL), o Hospital Frei Justo Venturi e a Casa das Freiras, além de contribuir para ampliações de praças e outras estruturas urbanas importantes para a cidade.
Os relatos dos moradores mostram que, embora as transformações urbanas façam parte do crescimento natural de Seabra, as mudanças mais sentidas pela população aconteceram nas relações humanas e no cotidiano comunitário.
“Sinto que, junto com o crescimento, Seabra perdeu um pouco daquela convivência mais próxima entre as pessoas. Antigamente, os vizinhos se conheciam mais, as famílias conviviam mais nas portas, havia mais tempo para conversa e para os encontros simples da vida”, resume Maria Auxiliadora Sá Teles.
Entre lembranças, afetos e transformações, Seabra chega aos 137 anos preservando histórias que ajudam a construir a identidade da Chapada Diamantina e reforçam a importância da memória coletiva para as cidades do interior baiano, incluindo comunidades populares, bairros periféricos e territórios tradicionais que mantêm vivas as raízes culturais da região.
O post Seabra celebra 137 anos entre memórias, afetos e transformações na Chapada Diamantina apareceu primeiro em ANF - Agência de Notícias das Favelas.



COMENTÁRIOS