Costureiras de Pernambués transformam talento em renda e fortalecem empreendedorismo na periferia de Salvador
Na periferia de Salvador, no bairro de Pernambués, histórias de autonomia e empreendedorismo ganham forma a partir de linha, agulha e muita determinação. As costureiras Di Maria Trindade e Joseane Gonçalves são exemplos de como o talento, aliado à necessidade e à persistência, pode se transformar em fonte de renda e independência dentro da favela.
O que antes era visto como uma atividade tradicional, muitas vezes associada a gerações mais antigas, hoje se reinventa nas mãos de mulheres que utilizam a costura como ferramenta de sustento e protagonismo. Em seus ateliês, elas não apenas ajustam roupas, mas constroem trajetórias marcadas por superação e autonomia financeira.
Moradoras de Pernambués, Di Maria e Joseane acumulam experiências que vão desde serviços emergenciais para artistas até produções personalizadas para eventos sofisticados. Atualmente, cada uma com seu próprio ateliê, elas têm na costura a principal fonte de renda e organização da vida profissional.

Di Maria encontrou na costura uma alternativa após enfrentar dificuldades no mercado formal. Antes de empreender, passou por diferentes ocupações informais, como auxiliar de classe e trabalhadora de comércio local. A virada veio a partir da inspiração dentro de casa, ao observar a mãe trabalhando com moda praia.
“A necessidade fez nascer o meu ateliê, mas o exemplo veio da minha mãe”, conta. Com mais de duas décadas de experiência, ela iniciou o negócio dentro da própria residência, confeccionando biquínis, e hoje realiza reformas, ajustes e customizações diversas.
Já Joseane Gonçalves, que atua há 15 anos na área, construiu sua trajetória a partir de pequenos serviços realizados em casa até consolidar o próprio espaço. A experiência em uma empresa de costura foi decisiva para aprimorar habilidades técnicas e, principalmente, o atendimento ao cliente.
“Aprendi que cada profissão tem sua linguagem, e isso me ajudou muito a explicar melhor o serviço para os clientes e passar mais segurança”, afirma.

Apesar da experiência, o preconceito por conta da idade foi um desafio enfrentado por ambas no início da carreira. Joseane relembra que muitos clientes se surpreendiam ao encontrá-la. “As pessoas diziam que pensavam que eu era uma senhorinha e duvidavam da minha capacidade por eu ser jovem”, relata.
Na prática, empreender na periferia também envolve desafios estruturais, como a definição de preços justos e a gestão do próprio negócio. A precificação, inclusive, é apontada como uma das maiores dificuldades enfrentadas no início.
“A gente vai aprendendo no dia a dia. No começo, os preços eram mais baixos para conquistar clientes, depois fui ajustando conforme fui sendo reconhecida”, explica Joseane.
Para Di Maria, a busca por conhecimento e a vivência em diferentes ateliês ajudaram a desenvolver estratégias próprias de trabalho. “Fui observando o que dava certo em outros lugares e trazendo para o meu espaço”, destaca.
O apoio da família e da comunidade também aparece como fator essencial para o crescimento dos negócios na favela. Seja ajudando na mudança, indicando clientes ou incentivando nos momentos de dúvida, essa rede de apoio fortalece o empreendedorismo local.
Mesmo com conquistas, conciliar trabalho e vida pessoal segue sendo um desafio constante. A rotina intensa, muitas vezes solitária, exige disciplina e organização. “Não é fácil dar conta de tudo sozinha. Tem dias que são muito cansativos, mas é gratificante ver o resultado”, afirma Joseane.
Além da geração de renda, a costura também se torna instrumento de transformação social. Di Maria já atuou ensinando técnicas básicas para jovens em projetos comunitários, compartilhando conhecimento como forma de ampliar oportunidades dentro das periferias.
“Se elas se interessarem, podem ganhar o próprio dinheiro com algo que não exige tanto investimento”, ressalta.
As histórias de Di Maria e Joseane mostram que, nas favelas e periferias, o empreendedorismo vai muito além do lucro. Ele representa resistência, autonomia e a construção de novos caminhos a partir das próprias habilidades — um tecido social que se fortalece ponto a ponto.
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