Como foi a 1ª fase da Unicamp 2027? Professores avaliam cada disciplina
A primeira fase da Unicamp 2027, aplicada no último domingo (18) para 54.702 candidatos, foi considerada de nível médio pelos professores ouvidos pelo GUIA DO ESTUDANTE. A estrutura repetiu a dos anos anteriores, com textos longos e atuais e muita cobrança de interpretação crítica dos candidatos. Segundo os professores, a dificuldade ficou concentrada em questões pontuais de cada disciplina e no volume de texto, que tornou a prova cansativa.
Como já é esperado da Unicamp, a prova contou com tópicos de atualidades diluídos entre as questões. Apareceram o Prêmio Nobel de Química de 2025, as intoxicações por metanol em bebidas, a morte de uma pessoa na piscina de uma academia em São Paulo, a fantasia viral do Carnaval, o curling da Olimpíadas de Inverno, os debates da questão racial, o uso de inteligência artificial em guerras e a deportação de imigrantes nos Estados Unidos.
- Gabarito extraoficial da 1ª fase Unicamp 2027: prova Q e Y
- Gabarito extraoficial da 1ª fase Unicamp 2027: prova S e W
- Gabarito extraoficial da 1ª fase Unicamp 2027: prova T e X
- Gabarito extraoficial da 1ª fase Unicamp 2027: prova R e Z
Fez referência a si mesma
Com certeza um destaque da prova deste ano foi o autorreferenciamento. Fundada em 1966, a Unicamp completa 60 anos em 2026, e a prova não deixou a data passar em branco. A homenagem mais explícita esteve na introdução de duas questões que traziam um texto lembrando que, no ano em que a universidade foi criada, Chico Buarque lançava seu primeiro álbum, do qual saiu “Sonho de um carnaval”, canção analisada pelos candidatos.
Em Matemática, duas questões reaproveitaram figuras que já tinham aparecido no vestibular de 1987. “Você que é fã do Vestibular Unicamp deve se lembrar dela”, anunciava o texto. Em Geografia, uma questão pedia que o candidato comparasse o logo da universidade com uma imagem aérea do campus e distinguisse o que nele é representação simbólica e o que é representação cartográfica.
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Em Literatura, uma questão partiu de um trecho de uma aula aberta de Conceição Evaristo na universidade, em agosto de 2026, por ocasião dos 40 anos da Comvest (Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp).
Foi difícil?
No conjunto, a prova foi avaliada como de nível médio. Abaixo, veja como os professores classificaram cada disciplina e, em seguida, uma análise individual.
- Língua Portuguesa: fácil a médio;
- Literatura: médio;
- Inglês: médio;
- História: fácil a médio;
- Geografia: médio;
- Filosofia e Sociologia: médio a difícil;
- Matemática: médio;
- Química: fácil a médio;
- Física: fácil;
- Biologia: difícil.
Língua Portuguesa
A intertextualidade foi uma das marcas da prova de Língua Portuguesa da Unicamp 2027. Embora seja um recurso recorrente no vestibular, ganhou destaque especial nesta edição, com questões que exigiram a leitura simultânea de três textos — uma novidade em relação às provas anteriores, que reuniam, no máximo, dois textos por questão.
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Um exemplo é a questão que relacionou uma fotografia de Carnaval, uma charge inspirada na imagem e o verbete “fantasia”. A mesma questão também ilustra como a prova aproximou a análise textual de debates sociais, ao relacionar uma fantasia carnavalesca que viralizou nas redes sociais à conscientização sobre o feminicídio. Outros temas contemporâneos abordados foram a jornada de trabalho e o preconceito linguístico.
Além de demandar uma leitura crítica, com atenção às relações de complementaridade e oposição entre os textos, a prova cobrou conteúdos tradicionais, como formação de palavras e tempos e modos verbais. De modo geral, os professores consideraram as questões tranquilas e coerentes com o estilo habitual da Unicamp.
Literatura
Das nove obras obrigatórias, seis foram cobradas, em seis questões de nível médio de dificuldade. A mais fácil foi sobre um episódio muito famoso de “Memórias Póstumas de Brás Cubas“: a cena em que o menino Brás Cubas monta em Prudêncio, jovem escravizado, como se ele fosse um cavalo. A mais difícil foi sobre o poema “À bengala”, de José Paulo Paes, que exigia uma interpretação mais sutil, como é comum em questões com poemas.
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Os professores destacaram a abordagem de metaficção em “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá” e a questão sobre Conceição Evaristo, que combinava a fala da autora com os contos “Olhos d’água” e “Zaíta”. Para um deles, a prova foi mais organizada e bem escrita que a do ano passado. Veja quais livros caíram:
- “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis;
- “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, de Lima Barreto;
- “Prosas seguidas de odes mínimas”, de José Paulo Paes;
- “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo;
- “No seu Pescoço”, de Chimamanda Ngozi Adichie;
- “Os funerais da Mamãe Grande”, de Gabriel García Márquez.
Ficaram de fora “Canções Escolhidas”, de Paulo César Pinheiro, “Morangos Mofados”, de Caio Fernando Abreu, e “A vida não é útil”, de Ailton Krenak.
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Inglês
A prova de Inglês foi considerada de nível médio e bastante fiel ao simulado divulgado pela Comvest. Exigiu mais compreensão do que vocabulário. Destaque para a questão que pedia a comparação entre depoimentos do ator Wagner Moura e da escritora Toni Morrison sobre arte e política. E a questão que trazia alternativas em imagens: a partir de uma descrição em inglês, o candidato precisava identificar o urucum entre ilustrações de frutos amazônicos.
Os professores sublinharam que a Unicamp usa o inglês também para falar do Brasil, não só de outras culturas. Os demais temas foram bem atuais, como a gíria “gag”, os companheiros virtuais de inteligência artificial, um poema falado sobre a África e os direitos dos animais. A questão sobre a opinião de estadunidenses a respeito da deportação de imigrantes combinava inglês com leitura de dados em gráfico.
História
Em História, a Unicamp seguiu o perfil tradicional do vestibular, com questões que valorizaram a leitura e a interpretação de textos, além da reflexão crítica sobre processos históricos. Manteve-se também a preferência por abordar grupos historicamente marginalizados, como povos indígenas e pessoas escravizadas, e a discussão de temas relacionados a direitos, participação social e meio ambiente. A História da América também marcou presença, assim como questões de historiografia e história cultural.
Os textos de apoio foram fundamentais para a resolução das questões, alguns com trechos mais densos e que demandaram leitura atenta. Na avaliação dos professores, o nível de dificuldade da prova foi semelhante ao dos anos anteriores, com quatro das seis questões classificadas como fáceis. Também ressaltaram que o desempenho dos estudantes dependeu menos da memorização de conteúdos e mais da capacidade de compreender adequadamente os textos e interpretar corretamente as alternativas.
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Geografia
Avaliada pelos professores com nível de dificuldade médio, a prova de Geografia também acompanhou o perfil da prova de anos anteriores, com temas variados e textos e alternativas extensos. Globalização, agronegócio, produção de etanol, urbanização, cartografia e biomas da Austrália estiveram entre os tópicos abordados.
A prova também cobrou assuntos contemporâneos, como o uso de inteligência artificial em conflitos militares na disputa entre Estados Unidos e China. Aspectos demográficos do Censo 2022 e o centenário de Milton Santos, importante referência da Geografia brasileira, completaram a lista.
A questão mais desafiadora foi a que exigiu a análise de dois mapas para relacionar a quantidade de chuva à evapotranspiração e à urbanização. Por outro lado, a ausência de temas clássicos sobre geopolítica e fuso horário surpreendeu os professores, que esperavam encontrá-los na prova pela possibilidade de relação com atualidades.
Filosofia e Sociologia
As questões de Filosofia e Sociologia foram consideradas de nível médio a difícil. As alternativas longas e, em alguns casos, confusas exigiram uma leitura mais cuidadosa e, por vezes, a releitura para que os candidatos compreendessem melhor as possibilidades de resposta.
Em Sociologia, a prova abordou relações raciais, democracia em um cenário de polarização e negacionismo científico. A questão sobre este último tema foi apontada como uma das mais difíceis, por combinar texto e diagrama.
Já em Filosofia, o exame manteve a tendência dos últimos anos, com discussões relacionadas a debates contemporâneos e políticos. Entre os pensadores abordados estavam Jürgen Habermas, que morreu em 2026, Simone Weil e Enrique Dussel. A questão que relacionava, a partir de Dussel (autor pouco conhecido no ensino médio), a conquista da América à origem da filosofia moderna foi considerada a mais difícil da disciplina.
Matemática
As 12 questões de Matemática foram consideradas de nível médio, com perfil mais algébrico que o de outros vestibulares, como Enem e Fuvest, que vêm dando mais espaço a proporção, combinatória e estatística. Metade das questões envolveu funções. Segundo os professores, em muitos casos uma análise qualitativa da situação levava à resposta sem contas longas.
A mais fácil foi a que tinha um sistema linear sobre a venda de pizzas para custear uma viagem. A mais difícil foi a que combinava probabilidade com máximo divisor comum. A questão que pedia o gráfico do determinante de uma matriz também foi citada como uma das mais exigentes.
Física
Com questões objetivas, enunciados claros e conteúdos tradicionais, a prova de Física foi avaliada como fácil pelos professores. Das sete questões, quatro abordaram Mecânica, duas trataram de Eletrodinâmica e uma foi dedicada à Calorimetria. Gravitação, polias e atrito estiveram entre os tópicos cobrados, enquanto a ausência de questões de Óptica e Ondas deixou os professores surpresos.
As questões também trouxeram situações do cotidiano e referências a temas atuais, como o funcionamento da tornozeleira eletrônica, o consumo de energia de aparelhos em modo de espera, os dez anos da primeira observação das ondas gravitacionais e o curling, esporte disputado nas Olimpíadas de Inverno.
Química
A prova de Química foi considerada bem elaborada, com enunciados de fácil compreensão e questões que valorizaram os conteúdos trabalhados em sala de aula. Outro destaque foi a maior ênfase nos conceitos químicos, com poucas questões que necessitavam de cálculos.
Essas características representam uma mudança observada desde a edição anterior, já que a Unicamp costumava apresentar, em Química, questões menos alinhadas aos conteúdos do ensino médio. Para os professores, a mudança é positiva, pois valoriza a preparação dos candidatos e o domínio dos conhecimentos da disciplina.
Entre os assuntos cobrados estavam equilíbrio químico, eletroquímica, eletrólise, forças intermoleculares e ácido-base. Como em outras áreas, a prova também trouxe atualidades para contextualizar as questões, como o Nobel de Química de 2025 e as intoxicações por metanol. No geral, as questões foram consideradas acessíveis para os estudantes que dominavam os conteúdos estudados ao longo do ano.
Biologia
A Biologia foi a disciplina avaliada como mais difícil. Abrangeu quase todos os temas, com exceção de genética: biologia celular, evolução, sistema nervoso comparado, movimentos das plantas, ecologia, HIV/aids e medula espinhal. Exigiu bom domínio de conceitos, de estrutura e de fisiologia animal e vegetal, com alternativas incorretas muito bem construídas.
A mais fácil foi a sobre transcrição e tradução, apresentada com uma tirinha. Já a mais difícil foi a sobre pirâmides ecológicas. Os contextos dialogaram com a atualidade, como o veneno da jararaca-ilhoa e a desinformação que associava a vacina contra a Covid-19 à aids.
Viktor Lemos, diretor-geral do Curso Anglo, da Cogna Educação; Isabela Araujo Ramos, especialista em soluções educacionais do SAS Educação; Luiz Guilherme Novais, especialista em soluções educacionais do COC; Liliane Negrão, professora de Gramática do Colégio Oficina do Estudante; Marcelo Maluf, professor de Literatura do Colégio Oficina do Estudante; João Victor Soares, professor de Língua Inglesa do Colégio Oficina do Estudante; Rodrigo Miranda, professor de História do Colégio Oficina do Estudante; Rafaela Locali, professora de Geografia e Atualidades do Colégio Oficina do Estudante; Silvio Sawaya, professor de Filosofia e Sociologia do Colégio Oficina do Estudante; Pedro Gomes, professor de Física do Colégio Oficina do Estudante; Pietro Escobar, professor de Química do Colégio Oficina do Estudante.
Calendário Unicamp 2027
- 1ª Fase: 18 de outubro de 2026;
- 2ª Fase: 29 e 30 de novembro de 2026;
- Provas de habilidades específicas (Artes Cênicas, Artes Visuais e Dança): 2 a 4 de dezembro de 2026;
- Divulgação dos aprovados da 1ª Chamada: 25 de janeiro de 2027;
- Matrícula virtual da 1ª chamada: 26 e 27 de janeiro de 2027;
- Divulgação dos aprovados da 2ª Chamada: 1 de fevereiro de 2027;
- Matrícula virtual da 2ª chamada: 02 e 03 de fevereiro de 2027;
- Divulgação dos aprovados da 3ª Chamada: 11 de fevereiro de 2027;
- Matrícula virtual da 3ª chamada: 12 de fevereiro de 2027.
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