Vale a pena aprender dois idiomas ao mesmo tempo? Especialista esclarece as principais dúvidas
Falar outro idioma continua sendo uma das habilidades mais valorizadas no mercado de trabalho e na vida acadêmica. Além de ser um diferencial no currículo, o aprendizado de uma língua estrangeira também permite conhecer diferentes culturas e amplia a visão de mundo, seja ao consumir filmes, livros e músicas de outros países, seja em viagens ao exterior.
Mas, se aprender um idioma já exige disciplina, tempo e prática constante, o que acontece quando o objetivo é estudar dois — ou até mais — ao mesmo tempo? Será que essa estratégia realmente funciona ou pode acabar atrapalhando o processo? O GUIA DO ESTUDANTE conversou com Carina Fragozo, PhD em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora da English in Brazil, para entender quais são os principais desafios e as melhores estratégias para quem deseja aprender mais de uma língua simultaneamente.
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É possível aprender mais de um idioma ao mesmo tempo?
Aprender dois ou mais idiomas ao mesmo tempo é sim possível, desde que o estudante compreenda que o progresso em cada língua tende a acontecer de forma mais gradual. De acordo com Carina Fragozo, o cérebro humano tem capacidade para lidar com esse aprendizado simultâneo, principalmente quando há uma boa gestão do tempo e das expectativas.
“Se eu tenho dez horas por semana para estudar inglês e passo a dividir esse tempo entre inglês, espanhol e francês, provavelmente vou avançar mais devagar em cada uma delas”, explica. Isso, no entanto, não significa que o aprendizado esteja sendo prejudicado. Na prática, o tempo e o esforço apenas passam a ser distribuídos entre diferentes objetivos, ao invés de se concentrar em uma única língua.
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Embora seja comum ouvir que a infância é a fase ideal para aprender um novo idioma, isso não significa que estudantes mais velhos estejam em desvantagem. As crianças costumam apresentar maior facilidade para reproduzir sons e desenvolver uma pronúncia próxima a de falantes nativos. “Por outro lado, adolescentes e adultos possuem habilidades cognitivas que podem favorecer a aprendizagem, como maior capacidade de concentração, conhecimento de estratégias de estudo e consciência sobre o próprio processo de aprendizagem”, destaca a especialista.
Mais do que a idade, fatores como motivação e experiência prévia com línguas estrangeiras exercem um papel decisivo no aprendizado simultâneo de idiomas. Para Carina, ter objetivos bem definidos para cada idioma é fundamental para manter a constância nos estudos ao longo do tempo. Além disso, quem já passou pelo processo de aprender uma segunda língua costuma encontrar menos dificuldades ao estudar uma terceira ou quarta. “[Porque] passa a compreender melhor como funciona o próprio processo de aquisição de línguas e tende a lidar com erros e dificuldades de forma mais tranquila”, completa.
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Os pilares para o aprendizado de idiomas
Embora não exista uma fórmula única para aprender novos idiomas, algumas estratégias podem auxiliar o processo de aprendizagem. A metodologia de Carina Fragozo, por exemplo, se baseia em três pilares fundamentais: imersão, consciência e prática.
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A imersão é o primeiro deles. Ao invés de limitar o contato com o idioma às aulas e ao material didático, a recomendação é criar oportunidades para conviver com a língua no dia a dia. Isso pode acontecer por meio de músicas, filmes, séries, livros, podcasts ou conversas com falantes nativos. “Quanto mais oportunidades temos de encontrar a língua em contextos reais, maiores são as chances de o cérebro identificar padrões e construir conhecimento”, enfatiza a doutora em Linguística.
Já o pilar da consciência está relacionado à capacidade de prestar atenção ao idioma durante o aprendizado. “Isso significa perceber como determinadas palavras são usadas, notar estruturas gramaticais, identificar diferenças de pronúncia e entender por que os falantes escolhem certas formas de se expressar”, afirma. Fragozo ainda acrescenta que nesse processo a revisão também desempenha um papel essencial, pois ajuda a consolidar o conhecimento e evita que o conteúdo seja esquecido com o tempo.
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O terceiro pilar é a prática. Mais do que compreender o idioma, é preciso utilizá-lo no dia a dia. Falar, escrever e interagir são etapas essenciais para desenvolver habilidades que não se consolidam apenas com leitura e escuta. “Muitas pessoas acreditam que precisam esperar estar prontas para começar a falar, mas a prática faz parte do caminho para chegar lá”, observa.
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Além desses três pilares, a regularidade também é um fator decisivo no aprendizado de idiomas. Segundo Carina, a aprendizagem de um idioma depende muito mais da frequência do contato com a língua do que da quantidade de horas dedicadas. Por isso, estudar diariamente, mesmo que por apenas 20 ou 30 minutos, costuma ser mais eficiente do que reservar três horas consecutivas apenas aos finais de semana. “Isso acontece porque a aprendizagem depende de exposição frequente, recuperação da informação na memória e oportunidades repetidas de contato com a língua ao longo do tempo”, ressalta.
Quando o objetivo é aprender mais de um idioma simultaneamente, manter essa frequência pode ser um desafio, principalmente para quem tem pouco tempo disponível para estudar. Nesses casos, o avanço em cada língua tende a ser mais lento. Ainda assim, Carina destaca que é possível evoluir em dois ou mais idiomas ao mesmo tempo, desde que o estudante consiga manter um contato regular com cada um deles, mesmo que por períodos curtos.
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Os desafios fazem parte do processo
Conciliar o aprendizado simultâneo de idiomas exige mais do que organização da rotina. Também é importante estabelecer expectativas realistas. De acordo com Carina, esperar um avanço rápido e uniforme em todas as línguas pode gerar frustração, já que cada idioma costuma evoluir em um ritmo diferente. “Isso não significa que a aprendizagem esteja falhando, apenas que o tempo e a energia disponíveis estão sendo distribuídos entre mais de uma língua”, reforça.
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Outro desafio é manter a motivação ao longo do processo. A fundadora do English in Brazil explica que muitas pessoas iniciam os estudos com entusiasmo, mas encontram dificuldades para manter a constância com o passar do tempo. “Como a aprendizagem de línguas é um processo gradual, a falta de continuidade pode ser um obstáculo”, acrescenta.
Quem estuda idiomas semelhantes também pode enfrentar um fenômeno conhecido como interferência linguística, que ocorre quando as línguas estudadas são parecidas, como o português e o espanhol.
Nesses casos, é comum misturar palavras, pronúncias ou até assumir que termos parecidos têm o mesmo significado. Embora essas confusões possam gerar insegurança, elas não devem ser encaradas como um sinal de fracasso. “Confundir palavras ou estruturas faz parte do processo, especialmente quando as línguas são parecidas. O importante é continuar avançando e dar ao cérebro oportunidades suficientes para diferenciar cada sistema linguístico com o tempo”, conclui Carina.
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