Morreu o historiador que estudava a gente comum — e isso tem tudo a ver com a favela
O historiador italiano Carlo Ginzburg morreu nesta semana, em Bolonha, na Itália, aos 87 anos. O nome dele pode parecer distante da vida no Brasil. Mas o jeito como ele pensava a história ajuda a entender melhor as favelas brasileiras.
Ginzburg passou a vida estudando gente comum: moleiros, camponeses, pessoas sem nome nos livros e nos documentos oficiais. Ele defendia uma ideia simples: para entender uma sociedade inteira, é preciso olhar também para quem nunca aparece nos jornais, nos discursos do governo ou nos livros de história.
Seu livro mais conhecido, “O Queijo e os Vermes”, conta a história de um moleiro perseguido na Itália há quase 500 anos. A partir da vida de um homem simples, Ginzburg revelou conflitos e ideias de uma época inteira. Esse jeito de estudar a história ganhou um nome: micro-história. Olhar para o pequeno para entender o grande.
E onde entra a favela nessa história?
Durante décadas, as favelas brasileiras só apareceram nos documentos oficiais como problema: invasão, área irregular, risco, pobreza. Quem decidia o que era a favela, quase sempre, não era quem morava nela. Eram engenheiros, policiais e políticos.
Ginzburg ensinava o contrário. Para ele, é preciso desconfiar de quem conta a história sempre do mesmo jeito. Os detalhes que parecem pequenos — um barraco construído à mão, uma escada feita pelos próprios moradores, uma associação de bairro, uma foto antiga guardada numa gaveta — podem contar uma história muito maior: a história de como as cidades brasileiras foram realmente construídas.
Porque a favela não nasceu por acaso. Ela existe porque, durante décadas, milhões de trabalhadores migraram para as cidades grandes e não encontraram moradia esperando por eles. Quem chegou, construiu a própria casa, a própria rua, o próprio bairro — morro acima, na beira do rio, perto da linha do trem.
Vista assim, a favela não é um erro da cidade. É uma das formas como a cidade foi feita.
O legado de Ginzburg ajuda a lembrar disso: a história não pertence só a quem manda. Ela também está nos becos, nas vielas, nos mutirões e na memória de quem construiu a própria casa com as próprias mãos. Essa também é uma história — e merece ser contada.

Fonte: ASSIS, Angelo Adriano Faria de. & MATTOS, Yllan de.A escrita como patrimônio: O queijo e Os vermes, de Carlo Ginzburg e sua influência na historiografia contemporânea. Revista Escritas do Tempo – vol. 1, n. 1, mar-jun/2019 – p. 49-71, p.51
O post Morreu o historiador que estudava a gente comum — e isso tem tudo a ver com a favela apareceu primeiro em ANF - Agência de Notícias das Favelas.



COMENTÁRIOS