Empreendedora da Chapada Diamantina transforma experiência com a saúde em negócio de alimentação inclusiva
O crescimento da busca por hábitos mais saudáveis tem impulsionado novos empreendimentos em diferentes regiões do país. Na Chapada Diamantina, a empreendedora Michelle Lyra encontrou na alimentação inclusiva uma oportunidade de transformar uma experiência pessoal em fonte de renda, oferecendo pães, bolos e geleias artesanais sem glúten, leite ou açúcar.
Moradora de Seabra, Michelle começou a mudar sua alimentação após ser diagnosticada com fibromialgia. As dores constantes e os processos inflamatórios a levaram a buscar orientação nutricional e adotar uma dieta com restrição de alimentos considerados inflamatórios.
“Eu vivia sentindo dores, com o corpo todo inflamado. Fui a uma nutricionista e ela me orientou a retirar alimentos com glúten e açúcar. Depois desse processo, percebi o quanto meu corpo respondeu bem. Minhas dores reduziram em cerca de 90%”, relata.
A melhora na saúde despertou o interesse da empreendedora em compreender melhor os impactos da alimentação no organismo. Ao perceber a dificuldade de encontrar produtos saudáveis, saborosos e acessíveis na região, decidiu começar a produzir os próprios alimentos.
“Percebi que muitas pessoas enfrentavam a mesma dificuldade. Então comecei a estudar e desenvolver receitas para que mais pessoas tivessem acesso a esses alimentos”, afirma.
A procura por produtos sem glúten e com menor teor de açúcar acompanha uma tendência nacional. Dados da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA) apontam que o segmento de saúde e bem-estar está entre os que apresentam maior potencial de crescimento no mercado brasileiro.
Entre os consumidores está a administradora Samara Costa, que decidiu rever alguns hábitos alimentares após iniciar a prática de musculação.
“Comecei a pesquisar mais sobre alimentação e a me preocupar com isso quando passei a treinar. Troquei o pão tradicional pelo pão sem glúten e percebi mais disposição no dia a dia”, conta.
Segundo ela, a mudança também trouxe benefícios para a digestão e para a sensação de bem-estar. “Eu me sentia mais inchada quando consumia pão industrializado. Hoje percebo que minha digestão melhorou bastante.”
De acordo com Michelle, o público atendido é diverso e reúne desde pessoas com restrições alimentares até consumidores que desejam investir em qualidade de vida.
“Tenho clientes com diabetes, alergias, doenças autoimunes e também pessoas que simplesmente querem se alimentar melhor”, explica.
Dos testes na cozinha ao empreendedorismo
O interesse pela culinária sempre esteve presente na rotina da empreendedora, mas a produção de alimentos inclusivos exigiu estudo e persistência.
“Eu pensava que bastava trocar a farinha de trigo pela farinha de arroz, mas descobri que não era tão simples. Foram muitas tentativas e receitas perdidas até conseguir desenvolver produtos com boa textura e sabor”, relembra.
Para aperfeiçoar as receitas, Michelle investiu em cursos e capacitações voltados para a alimentação inclusiva. O objetivo era desenvolver produtos que mantivessem o sabor e a memória afetiva presentes em receitas tradicionais.
“O maior desafio é criar alimentos saborosos, que tragam conforto e boas lembranças para quem consome”, destaca.
Os ingredientes utilizados na produção são cuidadosamente selecionados e parte deles ainda precisa ser adquirida pela internet, devido à dificuldade de encontrá-los na região.
A primeira criação comercializada foi uma geleia sem açúcar, pensada como alternativa para acompanhar pães e substituir produtos industrializados. Com o tempo, o catálogo foi ampliado com pães de sementes, bolos e outros itens artesanais.


Produção artesanal e valorização do território
O empreendimento recebeu o nome de Áreas Verdes Cozinha Saudável, inspirado no sítio onde Michelle vive e produz os alimentos. Cercada pela natureza da Chapada Diamantina, ela realiza sozinha todas as etapas do processo, desde a produção até a embalagem e rotulagem dos produtos.
A identidade visual da marca contou com apoio do Centro Público de Economia Solidária da Bahia (Cesol) e foi pensada para refletir a conexão entre alimentação saudável, natureza e produção artesanal.
“A árvore representa a natureza, as frutas remetem às geleias e à colheita, enquanto o fuê simboliza a gastronomia e a panificação artesanal”, explica.
Atualmente, os produtos são vendidos por encomenda, entregues em domicílio, comercializados em feiras locais e também disponibilizados na sede do Cesol, em Seabra.
Para Michelle, o próximo passo é ampliar o alcance da produção e fortalecer o acesso da população do interior a alimentos mais saudáveis.
“Meu maior sonho é alcançar o maior número possível de pessoas e levar uma alimentação saudável para quem busca mais qualidade de vida. Quero que os produtos estejam cada vez mais presentes nos comércios da região”, projeta.
A iniciativa demonstra como o empreendedorismo feminino pode gerar renda, promover saúde e ampliar o acesso a alternativas alimentares em cidades do interior, contribuindo para o desenvolvimento local e para a diversificação da economia da Chapada Diamantina.
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