Projeto cria museu iorubá afrocentrado em meio à Mata Atlântica na Bahia
A cidade de Vera Cruz deu um passo histórico na valorização da cultura afro-brasileira e na preservação ambiental com o lançamento do projeto “Floresta Sagrada”, iniciativa que transformará parte do Parque Municipal de Vera Cruz, conhecido como Reserva My Friend, no primeiro museu iorubá afrocentrado instalado em uma área de preservação ambiental no Brasil.
O projeto foi apresentado oficialmente na última quinta-feira (21), reunindo lideranças religiosas, pesquisadores, representantes do poder público e integrantes do Instituto Cultural Isedale Egbé Yorùbá Brasil (ICIEYB). A proposta une memória ancestral, espiritualidade, preservação da Mata Atlântica e fortalecimento das tradições africanas presentes nas periferias, favelas e comunidades tradicionais da Bahia.
Inspirado nos territórios sagrados da cultura iorubá existentes em cidades da Nigéria, como Oyó e Oxobô, o espaço será estruturado a partir de fundamentos afrocentrados, trazendo representações dos orixás e elementos ligados à cosmologia africana.
A cerimônia contou com a presença do sacerdote SangoWale Alaka, do culto Yorubá Esin Orisa Ibile, vindo diretamente da cidade de Oyó, na Nigéria, para realizar a identificação espiritual da área onde o museu será implantado. Durante o encontro, ele conduziu um ritual em meio à Mata Atlântica, reforçando simbolicamente a relação entre natureza, ancestralidade e memória dos povos africanos que ajudaram a construir a identidade cultural brasileira.
Segundo o sacerdote, a proteção da área depende de um compromisso coletivo. “Todos devem estar juntos para proteger esse espaço sagrado”, afirmou.

Ancestralidade africana e preservação ambiental caminham juntas
A origem da Floresta Sagrada está diretamente ligada à trajetória de Marta de Sàngó, primeira mulher negra brasileira iniciada no culto ancestral de Sàngó, em Oyó, na Nigéria. Atual presidente do ICIEYB, ela também integrou delegações da ONU em conferências climáticas internacionais.
Após sua iniciação, Marta passou a desenvolver ações voltadas à valorização da cultura iorubá no Brasil e trouxe para a Ilha de Itaparica a proposta que deu origem ao projeto.
“É muito importante essa vinda dele para cá. Ele, como sacerdote do culto Esin Orisa Ibile, tem uma importância enorme para esse projeto que vamos desenvolver aqui na ilha”, destacou Marta sobre a participação de SangoWale Alaka.
Os povos iorubás estão entre os grupos africanos que mais influenciaram a formação cultural brasileira. Sua presença permanece viva nas religiões de matriz africana, na música, na culinária, nas festas populares e em práticas culturais preservadas especialmente nas periferias e comunidades negras do país.
Para os idealizadores, o projeto também surge como um instrumento de enfrentamento ao apagamento histórico das contribuições africanas no Brasil, fortalecendo a memória coletiva e a valorização dos territórios negros.
Museu afrocentrado será patrimônio vivo
A pesquisadora Janete Lis da Rocha, mestranda em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e diretora de projetos e pesquisa do ICIEYB, explica que a proposta da Floresta Sagrada se diferencia dos museus tradicionais por ser construída a partir de referenciais epistemológicos africanos.
“A Floresta Sagrada é um patrimônio vivo, um museu iorubá afrocentrado. Ele será construído exatamente como existem os espaços sagrados em Oyó e outras cidades nigerianas da cultura Yorubá”, explicou.
Janete também destacou a diferença entre museus afro-brasileiros e museus afrocentrados. Segundo ela, enquanto muitos espaços abordam a cultura negra a partir de perspectivas ocidentais, a afrocentricidade propõe uma estrutura baseada em valores civilizatórios africanos, envolvendo ancestralidade, territorialidade sagrada, oralidade, espiritualidade e formas próprias de produção de conhecimento.
A proposta prevê que o espaço funcione não apenas como local religioso e cultural, mas também como ambiente de pesquisa, aprendizado, convivência e fortalecimento da educação ambiental.
Projeto fortalece turismo sustentável e identidade cultural em Vera Cruz
A Subsecretária Municipal de Meio Ambiente de Vera Cruz, Silene Costa, destacou o impacto social, cultural e econômico da iniciativa para o município e para a Ilha de Itaparica.
“Une preservação ecológica, ancestralidade africana e turismo sustentável em um mesmo território”, afirmou.
Além da preservação ambiental, o projeto busca reconhecer o protagonismo histórico da Ilha de Itaparica e de Vera Cruz na manutenção das tradições afro-brasileiras, fortalecendo o pertencimento cultural das comunidades locais e ampliando o debate sobre memória, território e identidade negra.
Em meio à Mata Atlântica, a futura Floresta Sagrada nasce como um território de resistência cultural, onde árvores, saberes ancestrais e espiritualidade se entrelaçam como raízes profundas que seguem sustentando a história do povo negro no Brasil.
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