Comunidades quilombolas da Chapada reafirmam identidade e resistência cultural no interior da Bahia
Nas comunidades quilombolas da Chapada Diamantina, tradições culturais, modos de vida e relações coletivas seguem atravessando gerações e fortalecendo identidades construídas a partir da ancestralidade, da memória e da relação com a terra. Em municípios como Seabra, moradores, lideranças e pesquisadores apontam que os territórios quilombolas continuam sendo espaços de resistência cultural, preservação histórica e luta por direitos básicos.
Para o professor de História e coordenador regional do Fórum de Educação Escolar Quilombola da Bahia, Lauro Roberto, o território quilombola não pode ser entendido apenas como um espaço físico. Segundo ele, o conceito envolve pertencimento, memória coletiva, ancestralidade e formas próprias de organização social.
“O território é um espaço dotado de memória, de identidade, de saberes e de fazeres. É nesse espaço que as comunidades constroem suas práticas culturais, religiosas e sociais”, afirma.
De acordo com Roberto, a relação entre as comunidades quilombolas e o meio ambiente também faz parte da construção dessa identidade coletiva, reforçando a importância da preservação dos territórios tradicionais.
O professor destaca ainda que os quilombos contemporâneos não devem ser associados apenas à ideia histórica de refúgio de pessoas escravizadas que fugiam das fazendas. Para ele, atualmente os quilombos representam espaços de afirmação política, social e cultural.
“Hoje o quilombo é um espaço de afirmação de direitos e de resistência contra diversas formas de exclusão”, diz.
Entre os principais desafios enfrentados pelas comunidades, ele cita o fechamento de escolas quilombolas, dificuldades de acesso à saúde pública e falhas na implementação de políticas públicas específicas voltadas para essas populações, realidade que impacta diretamente comunidades rurais, periferias e territórios historicamente invisibilizados.
Na comunidade quilombola do Mocambo, a liderança comunitária Cleonice Santos afirma que assumir a identidade quilombola também significou enfrentar preconceitos históricos.
“Hoje sentimos orgulho de morar nesse território quilombola. Tenho orgulho da minha cor, dos meus costumes e da nossa comunidade”, relata.
Segundo Cleonice, durante muitos anos moradores sentiam vergonha de afirmar publicamente sua origem por conta da discriminação sofrida fora da comunidade. Atualmente, o reconhecimento da identidade quilombola fortalece o sentimento de pertencimento e resistência.
Ela explica que a terra representa herança, continuidade e memória ancestral.
“Foi nessa terra que nasceram nossos pais, nossos avós e as pessoas que vieram antes de nós”, afirma.
Tradições como a Festa de Reis, os festejos juninos, as comidas típicas e celebrações religiosas seguem presentes no cotidiano da comunidade, embora algumas práticas estejam se enfraquecendo entre os mais jovens.
O antropólogo Cláudio Dourado destaca que o processo de autorreconhecimento quilombola pertence exclusivamente às próprias comunidades. Segundo ele, não existe um “marco temporal” que determine quando um grupo pode ou não se reconhecer como quilombola.
“Muitas comunidades só passam a reivindicar esse reconhecimento a partir de conflitos territoriais ou ameaças externas”, explica.
Para Dourado, qualquer tentativa de limitar esse processo por meio de datas seria inconstitucional. O antropólogo também afirma que, após o reconhecimento, cabe ao Estado realizar estudos técnicos para identificar e delimitar os territórios quilombolas.
“A territorialidade quilombola não se resume à propriedade privada. Ela envolve relações coletivas de produção, convivência e preservação cultural”, afirma.
Na comunidade da Bocaina, a moradora Catarina Oliveira define a identidade quilombola como uma ligação permanente com a ancestralidade e os ensinamentos deixados pelos antepassados.
“Aqui a gente conhece a própria história e aprende desde cedo os costumes da comunidade”, relata.
Ela destaca que práticas como o uso do fogão a lenha, as rezas, os festejos religiosos e os modos tradicionais de plantio seguem sendo preservados pelos moradores. Lugares como o Morro do Cruzeiro, a Lapa da Inocência e a Pedra do Tapoio são considerados espaços sagrados pela comunidade.
Na comunidade quilombola de Agreste, a vice-secretária da Associação Quilombola Amigos do Agreste, Vanessa de Souza Alves, afirma que a identidade quilombola é construída principalmente pela convivência coletiva e pela transmissão das tradições entre gerações.
Segundo ela, manifestações culturais como o batuque, os ternos de reis e as festas religiosas fazem parte da formação das crianças e adolescentes da comunidade.
“As crianças crescem participando desses espaços e aprendem observando os mais velhos”, afirma.
Vanessa também destaca o forte senso de solidariedade presente dentro do quilombo.
“Quando uma família precisa de ajuda para cobrir uma casa ou fazer uma plantação, a comunidade se mobiliza para ajudar”, relata.
Ela afirma ainda que muitos moradores precisam deixar o território em busca de trabalho e melhores condições de vida, principalmente em grandes centros urbanos como São Paulo. Mesmo assim, segundo ela, o vínculo com a comunidade permanece.
“O cuidado com a terra e com a comunidade continua existindo, mesmo quando a pessoa está longe”, diz.
O jovem Gilvanilson Silva Alves, conhecido como Giva, afirma que a comunidade mantém vivas tradições como o reisado, o batuque, a capoeira e as festas religiosas dedicadas a Nossa Senhora do Desterro e ao Divino Espírito Santo.
Ele também chama atenção para os impactos da seca sobre a agricultura local e sobre a permanência da juventude nos territórios quilombolas.
“Antes a chuva era mais frequente e facilitava o plantio. Hoje muitos jovens precisam sair da comunidade para buscar trabalho”, afirma.
Segundo Giva, a terra continua sendo a principal fonte de sustento para muitas famílias que permanecem no território.
“Fui criado vendo meus avós e meus pais lutando pelo bem coletivo da comunidade”, relata.
Para a moradora Regiane Cassimiro, ser quilombola significa resistência, união e solidariedade coletiva.
“As pessoas se ajudam e mantêm tradições próprias. Existe um sentimento de união muito forte entre as comunidades quilombolas”, afirma.
Entre manifestações culturais, celebrações religiosas, práticas agrícolas e formas coletivas de organização, as comunidades quilombolas da Chapada Diamantina seguem reafirmando identidades ancestrais e fortalecendo a luta por reconhecimento, preservação territorial e acesso a direitos fundamentais.
O post Comunidades quilombolas da Chapada reafirmam identidade e resistência cultural no interior da Bahia apareceu primeiro em ANF - Agência de Notícias das Favelas.



COMENTÁRIOS