SOBAC celebra 60 anos com cultura, resistência e protagonismo popular no litoral pernambucano
No dia 1º de maio, quando o Brasil volta seus olhos para quem constrói o país com o próprio corpo e coragem, a tradição também ergue sua voz em forma de celebração. A Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo (SOBAC) completa 60 anos de história realizando o 11º Encontro Zé da Banha, na Vila de Nazaré, no litoral do Cabo de Santo Agostinho. Mais do que um evento cultural, o encontro reafirma a força das manifestações populares que resistem e florescem nos territórios periféricos.
Fundada em 1966 por trabalhadores, a SOBAC carrega no próprio DNA a ligação entre cultura e classe trabalhadora. Reconhecida como o primeiro grupo de bacamarteiros operários do Brasil, a entidade construiu uma trajetória marcada pela organização coletiva, inovação e compromisso social. Ao longo dessas seis décadas, o grupo implementou medidas de segurança no uso dos bacamartes, criou um regimento interno disciplinar e desenvolveu iniciativas sociais voltadas para suas comunidades, como educação para filhos de integrantes e atendimento de primeiros socorros.
Hoje, a SOBAC também se destaca por romper barreiras históricas dentro da cultura popular. Com mais de 50% do seu efetivo formado por mulheres, o grupo fortalece a presença feminina em uma tradição que, por muito tempo, foi marcada pela exclusão de gênero. Esse movimento ecoa diretamente nas periferias, onde mulheres seguem protagonizando processos culturais e comunitários, muitas vezes invisibilizados.
O Encontro Zé da Banha integra as ações do Museu Olímpio Bonald de Bacamarte (MOBBAC), considerado o único museu físico dedicado ao bacamartismo no mundo. O espaço já recebeu reconhecimento importante pela preservação da memória cultural em Pernambuco, reforçando o papel dessas iniciativas na valorização das identidades populares.
A programação do evento se estende das primeiras horas da manhã até o fim da tarde, ocupando as ruas com uma verdadeira celebração coletiva. Entre as atividades estão o café da manhã comunitário, a Procissão dos Santos Joaninos, a Missa dos Bacamarteiros, o Cortejo Secular, a simbólica Linha de Tiro da Paz, além de apresentações culturais, condecorações e o tradicional arrasta-pé. É cultura viva pulsando fora dos grandes centros, onde a arte não se separa da vida cotidiana.
Neste ano, o evento amplia ainda mais seu alcance com a participação de grupos de diferentes estados do Nordeste, como a Sambada dos Bacamarteiros de Carmópolis, a Banda de Pífanos de Santa Brígida e diversas outras expressões culturais que dialogam com as raízes populares. A diversidade de atrações reforça o encontro como um espaço de intercâmbio cultural e fortalecimento de redes entre comunidades.
A produção do evento é conduzida pelo casal Ivan e Felícia Marinho, mestre e mestra da SOBAC, que seguem mantendo acesa a chama dessa tradição. Sob sua liderança, o grupo não apenas preserva o passado, mas também reinventa o presente, garantindo que o bacamartismo continue dialogando com as novas gerações.
Reconhecida como Ponto de Cultura desde 2008, a SOBAC desenvolve o projeto “Bacamarte: Tiro da Paz”, oferecendo oficinas de pífano, xaxado, coco, percussão, canto coral e inclusão digital, especialmente voltadas para públicos das periferias. A instituição também acumula premiações e títulos que reforçam sua relevância, como o Prêmio Selma do Coco de Culturas Populares e o Prêmio Aldir Blanc, além do reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Cabo e Patrimônio Vivo de Pernambuco.
Em tempos em que as periferias e favelas seguem lutando por visibilidade, investimento e respeito, iniciativas como a da SOBAC mostram que a cultura é também ferramenta de transformação social, geração de renda e fortalecimento da identidade coletiva. No som dos bacamartes, não ecoa apenas pólvora, mas história, resistência e futuro.
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