Pesquisa indica que BookTok impulsiona vendas de livros no Brasil e muda relação com a leitura
De tempos em tempos, surge algum impulsionador de leitura entre os mais jovens. Nas últimas décadas, adaptações para o cinema ou a TV reinaram com folga nessa função: sagas como “Harry Potter”, “Crepúsculo”, “Jogos Vorazes” e “Game of Thrones” levaram os jovens das telas direto para as livrarias. Mais recentemente, “Bridgerton”, “Daisy Jones and the six” e “O verão que mudou minha vida” também tiveram um efeito semelhante, com suas séries e filmes nos streamings. Mas, no meio disso, um fenômeno diferente desponta: o BookTok, a comunidade literária do TikTok.
Lá, milhares de usuários publicam vídeos curtos falando sobre suas leituras, recomendando romances, mostrando pilhas de livros recém-comprados ou simplesmente compartilhando suas opiniões após concluir uma obra. Uma nova pesquisa, realizada pelo centro de pesquisa Reglab e divulgados pela plataforma, revela o tamanho deste alcance.
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Somente em 2025, a hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de visualizações no país. Os conteúdos sobre a temática literária superaram 12 bilhões de visualizações no mesmo período.
O impacto dessa comunidade não fica restrito ao ambiente digital. A pesquisa nota que editoras e livrarias já passaram a observar o BookTok de forma estratégica, como um termômetro de tendências. A partir da pandemia, tornou-se cada vez maior o número de consumidores que chegam a feiras, eventos e livrarias com títulos específicos em mente — muitas vezes descobertos a partir de virais.
Editoras e livrarias já entenderam o recado
Em visitas de campo realizadas em livrarias, os pesquisadores observaram o fenômeno na prática. Jovens consumidores chegam com prints, na tela do celular, de vídeos que assistiram na plataforma, com a indicação de algum usuário ou criador de conteúdo. O poder dessa influência seria nítido nas lojas (que não raramente possuem seções dedicadas aos “Sucessos do TikTok”). Quando algum título viraliza do dia para a noite, há grandes chances de esgotar das prateleiras.
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O vendedor, assim, desempenharia um papel quase de “tradutor” e “mediador”, conseguindo identificar de qual obra o consumidor estaria falando, ou incentivando a compra ao citar que o livro está viralizado na plataforma. “Em espaços de curadoria mais politizada e independente, a influência do BookTok é menor e mais indireta; em contextos comerciais, tende a ser mais visível e orientada à conversão rápida”, afirma o relatório.
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O movimento também ajudaria a explicar alguns números do mercado editorial brasileiro. Entre 2024 e 2025, o setor teve avanço de 7,8% nas vendas. Uma pesquisa conduzida pela Nielsen BookData e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) afirma que o mercado nacional saltou de uma receita de R$2,28 bilhões em 2024 para R$2,49 bilhões em 2025. Cerca de 48 milhões de livros foram comercializados ao longo do ano de 2025.
O estudo destaca que o fenômeno não se limitaria a impulsionar somente títulos recém-lançados: o BookTok também teria a capacidade de resgatar livros antigos e transformá-los em sucessos novamente. Um exemplo seria “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, que voltou a aparecer entre os mais procurados depois de uma série de viralizações na comunidade — incluindo o relato de uma americana que se encantou pela obra.
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“A dinâmica comunitária do BookTok amplia as possibilidades de descoberta literária ao dialogar com as lógicas do TikTok como plataforma voltada à descoberta e ao entretenimento, permitindo que recomendações alcancem leitores e não leitores fora de seus circuitos habituais”, afirma o texto. “A saída da ‘zona de conforto’ e a aproximação com novos gêneros, autores e obras, além da participação em discussões interpretativas coletivas, potencializadas pelas hashtags, que agrupam os conteúdos.”
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Mudança na relação com a leitura
Para além do aumento no número de vendas, o BookTok também teria parcela na mudança comportamental dos mais jovens em relação à leitura. Uma das conclusões é que, dentro da comunidade, ler deixa de ser apenas um hábito solitário e passa a ser uma experiência coletiva, marcada por trocas e sentimento de pertencimento.
“O livro funciona simultaneamente como objeto cultural e marcador simbólico de pertencimento, inserido em uma dinâmica onde tendências e formatos recorrentes orientam a visibilidade de certos títulos, gêneros e autores.”
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Ainda que e-readers, como Kindle, também tenham registrado crescimento nos últimos anos, é no livro físico que há os maiores números: ironicamente, o meio digital funcionaria como um legitimador do objeto. “A circulação de recomendações, imagens e narrativas sobre livros nas redes sociais estimula o interesse pelo objeto impresso, que passa a ser consumido também por seu valor simbólico e estético.”
O papel dos fandoms e dos criadores de conteúdo fecham a equação. A criação de conteúdo sobre livros na internet não é algo novo (antes do BookTok, já existia a comunidade do BookTube, no YouTube, e do Bookgram, no Instagram), mas é a maneira como o TikTok opera que parece pulverizar ainda mais o alcance da temática.
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“As obras passam a circular articuladas a outras formas de entretenimento, como adaptações audiovisuais e a formação de fandoms, aproximando o universo literário de dinâmicas típicas da cultura digital atual.”
O incentivo ao compartilhamento rápido, autêntico e diverso do TikTok deixaria os usuários mais à vontade para falar de literatura — com menos pompa e expectativas do que observado em outras mídias.
“Livros aparecem de forma casual em conteúdos de lifestyle, esporte, empreendedorismo, beleza ou entretenimento, em uma dinâmica semelhante ao ‘scroll learning’, na qual o contato com conteúdos ocorre de forma espontânea durante a navegação pelo feed e funciona como porta de entrada para aprofundamentos posteriores.”
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