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Goiânia,04/04/2026

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    Obscuridade, o vício de linguagem das redações rebuscadas que pode levar à nota zero

    guiadoestudante.abril.com.br
    Obscuridade, o vício de linguagem das redações rebuscadas que pode levar à nota zero

    O contexto do Enem e dos grandes vestibulares gera nos estudantes o desejo de se destacar e, assim, conquistar pontuação suficiente para garantir o acesso a uma instituição de ensino superior. No entanto, uma redação escrita com vocabulário rebuscado e sem problemas gramaticais ganhou mídia recentemente não apenas por ter levado nota zero na Fuvest, mas também por ter resultado em um processo contra o reitor da Universidade de São Paulo. Como compreender esse ocorrido? E, principalmente, como garantir que nada parecido aconteça com você?


    O primeiro passo é entender que esse não é o contexto mais adequado para provocar grandes surpresas, mesmo que o plano seja surpreender positivamente. Os critérios de correção são objetivos e costumam considerar elementos como a qualidade da argumentação, a coesão do texto, a adequação ao gênero textual e o uso da norma-padrão da língua. Qualquer tipo de ornamento adicional pode distrair o próprio candidato daquilo que realmente importa: o conteúdo. A redação de vestibular é, antes de tudo, uma oportunidade de demonstrar a habilidade de defender um ponto de vista de modo coerente e coeso.





    Lidar com um tema surpresa pode parecer difícil, mas a proposta de redação costuma vir acompanhada de uma coletânea de textos, a fim de que todos partam de um mesmo ponto. Antes de iniciar a escrita, é fundamental ter certeza de que o tema foi bem compreendido, pois o não atendimento à proposta é um dos fatores mais frequentes de anulação da redação em várias instituições.


    Quando chega a hora da escrita, vale lembrar que um dos principais valores de um texto é a clareza. O rebuscamento, além de dificultar a compreensão do leitor (e tentar disfarçar a falta de argumentos), é um vício de linguagem chamado obscuridade. É preciso abandonar a falsa ideia de que um bom texto precisa ser difícil, com vocabulário pouco conhecido ou estruturas sintáticas excessivamente complexas. Texto bom é aquele que produz o efeito desejado — e, na situação de vestibular, isso significa apresentar bons argumentos de forma clara e coesa.


    Quer demonstrar repertório cultural? Ótimo, mas é preciso selecionar as referências com critério e usar somente aquilo que de fato contribui para a construção do argumento. Elencar citações ou paráfrases de outros autores de forma desconexa não contribui para a qualidade do texto e pode ser percebido como tentativa de preencher espaço (ou linguiça). Mais do que ter um repertório erudito, é importante ter discernimento para identificar quais ideias são pertinentes em cada parte do texto e como elas se articulam ao todo.



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    Em muitos contextos avaliativos, também há a expectativa de que o texto deixe claro qual é o posicionamento do autor, já que se trata de uma oportunidade de demonstrar autonomia reflexiva com base em ideias previamente apresentadas. Logo, um mero relatório acerca da opinião de terceiros não basta para constituir um texto dissertativo-argumentativo.


    Mas não se assuste com as notícias: exibir um vocabulário com termos eruditos não é critério suficiente nem para anular a redação nem para valorizá-la. Nesses contextos, lidamos com o conceito de adequação vocabular, que consiste na escolha de palavras compatíveis com os objetivos do texto e pertinentes no contexto de uso. O emprego excessivo ou sem intenção específica pode deixar a escrita pedante e pouco eficiente para a exposição das ideias.


    É uma pena que a redação nota zero “erudita” tenha vindo a público da forma como aconteceu. Candidatos que fazem provas como o vestibular da Fuvest ou o Enem são, em sua maioria, estudantes em processo de formação. É esperado que ainda não dominem todos os aspectos que levam à produção de textos de altíssima qualidade, algo que se constrói com tempo, prática e maturidade reflexiva. Logo, não é vergonha ter um texto zerado ou receber uma nota baixa. Mas sabemos que ninguém quer passar por isso!



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    O melhor preparo para a redação de vestibular não é decorar repertório nem tentar adivinhar o tema. É manter contato com atualidades, desenvolver autonomia reflexiva e acostumar-se a escrever textos ou explicar ideias de forma clara. Vale ter em mente um leitor com menos repertório e que, ainda assim, precisará entender o texto (ou os próprios avaliadores, que têm sempre centenas de redações para corrigir e não terão tempo para decifrar ideias muito empoladas).


    Não se preocupe em gerar um efeito de arrebatamento. Ainda que o autor extrapole expectativas estilísticas, não será premiado com nota extra em nenhum vestibular, já que o processo de correção busca reduzir a chance de uma avaliação subjetiva. Basta jogar conforme as regras do jogo, sem tentar fazer jogadas que poderão entrar para a história, mas nem sempre como o desejado. Enquanto a hora da prova não chega, pratique e leve em consideração as observações dos professores. Pode ter certeza de que tudo isso será suficiente para construir um texto seguro e sem surpresas para nenhum dos lados.


    carol jesper
    <span class="hidden">–</span>Arquivo pessoal/Reprodução


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    Carol Jesper é mestre em Linguagem e Educação pela USP, autora do livro “Não foi isso que eu quis dizer” (Maquinaria Editorial) e fundadora da página “Português é legal”.


     


     



    Leia redação nota mil no Enem que citou Torto Arado




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