Especialista explica por que vazamento radiológico na USP não é preocupante
Nos últimos dias, a USP (Universidade de São Paulo) protagonizou o noticiário não por causa da Fuvest — o vestibular tradicional para ingressar na instituição —, rankings universitários ou pela lista de leituras obrigatórias. A CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) confirmou, no dia 11 de junho, o vazamento de material radiológico no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), vinculado à universidade.
A informação assusta, mas Paola da Costa Rosa, especialista em radioproteção e dona do perfil Radiação para Leigos, explica que, até o momento, não há motivo para pânico. Isso porque o tempo de emissão radioativa do tecnésio-99m (metaestável), o elemento químico envolvido na situação, é curto e o ambiente onde o incidente ocorreu possui intenso controle.
Mas antes de tudo, é importante entender o que significam alguns termos-chave dessa área de pesquisa: radiação e radioatividade.
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A especialista, que também é autora da obra “Acidentes Radiológicos“, afirma que radiação é a saída e a propagação de energia, seja pelo espaço ou por algum meio material, como o corpo humano. Já a radioatividade é uma das formas de produzir essa propagação de energia, mas de maneira espontânea — ou seja, que não pode ser simplesmente desligada. Césio, cobalto, iodo, tecnécio e molibdênio são alguns exemplos de materiais radioativos.
A luz solar e o Wi-Fi são formas de radiação comuns no dia a dia. A diferença entre o que pode ou não causar contaminação está no caráter ionizante (capaz de arrancar elétrons de átomos e, portanto, mais perigoso), ou não-ionizante (que consegue agitar as partículas ou movê-las).
Há ainda a irradiação, que acontece quando um corpo físico é exposto à radiação ionizante – o que não significa que houve contato direto e o objeto ou organismo passa a “transportar” essa mesma característica. Neste caso, ao cessar a fonte, a exposição acaba. É a situação que acontece, por exemplo, quando você faz uma radiografia ou tomografia médica.
Outro termo importante é a contaminação, que precisa de uma interação direta para ter início, seja pelo toque, ingestão ou inalação. Nesse caso, aquilo que teve a aproximação também passa a emitir radiação — encerrada após lavagem ou descontaminação.
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Como tudo aconteceu na USP
O Ipen, que muita gente só conheceu a partir deste incidente, é um importante centro de pesquisas, conforme explica Paola. “Entre muitas coisas que se faz lá dentro, uma delas é essencial para o nosso país: a fabricação de radiofármacos.” Essas substâncias são medicamentos radiativos importantes para o diagnóstico e tratamento de doenças graves, como o câncer, e fazem parte da chamada Medicina Nuclear.
“A gente usa pequenas porções de material radioativo misturadas com esse fármaco, que é como se fosse um remédio, mas sem ação farmacológica, e esse conjunto é administrado no interior do corpo do paciente. A partir disso a gente consegue fazer, então, exames de imagem e alguns tipos de terapia”, explica.
É no Centro de Radiofarmácia do instituto — onde houve o vazamento — em que é fabricado tecnécio-99m, o isótopo mais usado no mundo como marcador radioativo para descobrir enfermidades. Ele surge a partir do decaimento (perda de energia) de outro elemento, o molibdênio-99.
A gestão técnica é administrativa do instituto é feita pelo CNEN, responsável pela pesquisa e desenvolvimento no ramo. Já quem faz a fiscalização e regularização das atividades nucleares no Brasil é a ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear)
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Segundo as investigações e notas publicadas até o momento, a ocorrência envolveu dois funcionários — chamados de Indivíduos Ocupacionalmente Expostos (IOEs), pelo contato com substâncias nocivas — durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave, equipamento usado na fabricação do tecnécio-99m.
De acordo com comunicado oficial, “a contaminação ficou restrita à área controlada, do Centro de Radiofarmácia do Instituto”. Além disso, as duas pessoas foram submetidas a exames de contagem de corpo inteiro, que faz a medição da taxa de dose radioativa recebida, e a conclusão foi que “as contagens detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna”. Essas ações fazem parte do Plano de Proteção Radiológica (PPR), que contempla medidas de prevenção, controle, vigilância e monitoramento e a garantia da qualidade dos procedimento radiológicos, abrangendo profissionais, pacientes e o público em geral.
As áreas atingidas, como explica outra nota do órgão, foram mãos, pés e cabelo, que estavam protegidos por EPIs (Equipamentos de Proteção Individual). “Provavelmente deve ter respingado alguma coisa, porque esses materiais radioativos, que nós chamamos de fontes não seladas, são materiais livres, sem invólucro”, expõe a especialista.
Paola comenta ainda que não há semelhança entre esse caso e o acidente radiológico de Goiânia, acontecido em 1987. Na ocasião, um aparelho radiológico, que havia sido abandonado, foi manuseado e aberto, o que dissipou o césio-137 pelas ruas e casas de quem teve contato com a substância. Quatro pessoas, incluindo uma criança, morreram devido ao contato direto com a fonte, 6 mil dejetos radioativos foram gerados e armazenados por tempo indeterminado, e dezenas de vítimas podem ter falecido em decorrência da contaminação.
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“Radiação é uma coisa que você não vê, não tem cheiro, não tem cor, não tem gosto. Você não tem como saber que você tá na presença daquilo. Então, as pessoas ficam com medo, elas não entendem a magnitude que aquilo representa”, diz.
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A especialista orienta que, ao se deparar com notícias sobre a temática, a melhor iniciativa é “verificar direto nos sites oficiais dos órgãos reguladores”. “Se você ver algo muito sensacionalista, já dá uma desconfiada”, recomenda.
O tempo é essencial
Um conceito importante para a área (e que demonstra a diferença entre os dois incidentes citados) é o tempo de meia-vida. Trata-se do intervalo temporal para que a atividade de uma amostra radioativa (quantidades de desintegrações, de número de mols e de massa) caia pela metade.
O número não é único para todas as substâncias, já que cada uma delas possui um tempo específico de decaimento. Confira alguns exemplos a seguir:
- Oganessônio-294: 0,89 milissegundos;
- Tecnécio-99m: 6 horas;
- Sódio-24: 15 horas;
- Iodo-131: 8 dias
- Césio-137: 33 anos;
- Carbono-14 (usado na datação arqueológica, para saber quando aproximadamente a morte de um ser aconteceu): aproximadamente 5.730 anos.
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Existe uma fórmula que facilita o cálculo da meia-vida em exercícios:
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Em que:
- t é o tempo total levado no decaimento que será analisado;
- x representa o número de meias-vidas se passaram nesse tempo;
- P é a meia-vida do elemento.
Pode cair nos vestibulares?
A resposta é sim! A própria Paola lembra que se deparou com uma questão do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) sobre radiação quando ainda era estudante.
Trata-se do item 84 da Prova Azul do Enem 2012. Veja abaixo o enunciado e as alternativas na íntegra:
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“A falta de conhecimento em relação ao que vem a ser um material radioativo e quais os efeitos, consequências e usos da irradiação pode gerar o medo e a tomada de decisões equivocadas, como a apresentada no exemplo a seguir.
‘Uma companhia aérea negou-se a transportar material médico por este portar um certificado de esterilização por irradiação.’
Física na Escola, v. 8, n. 2, 2007 (adaptado).
A decisão tomada pela companhia é equivocada, pois
A) o material é incapaz de acumular radiação, não se tornando radioativo por ter sido irradiado.
B) a utilização de uma embalagem é suficiente para bloquear a radiação emitida pelo material.
C) a contaminação radioativa do material não se prolifera da mesma forma que as infecções por microrganismos.
D) o material irradiado emite radiação de intensidade abaixo daquela que ofereceria risco à saúde.
E) o intervalo de tempo após a esterilização é suficiente para que o material não emita mais radiação.”
Nessa questão, a resposta correta é a letra A. A justificativa, de acordo com a plataforma Descomplica, é “o material irradiado é incapaz de acumular radiação, não se tornando radioativo, justamente por ter sido irradiado”.
Confira mais exemplos a seguir, com comentários do Descomplica:
Enem 2016
Pesquisadores recuperaram DNA de ossos de mamute (Mammuthus primigenius) encontrados na Sibéria, que tiveram sua idade de cerca de 28 mil anos confirmada pela técnica do carbono-14.
FAPESP. DNA de mamute é revelado. Disponível em: https://agencia.fapesp.br. Acesso em: 13 ago. 2012 (adaptado).
E) transformação do carbono-12 em carbono-14 ao longo dos anos.
Alternativa correta: A
Resolução: Quando um indivíduo morre dá-se início a redução da quantidade de carbono-14 por conta da sua transmutação natural.
6C14 → 7N14 + -1β0
Enem 2017 (Reaplicação)
O avanço científico e tecnológico da física nuclear permitiu conhecer, com maiores detalhes, o decaimento radioativo dos núcleos atômicos instáveis, desenvolvendo-se algumas aplicações para a radiação de grande penetração no corpo humano, utilizada, por exemplo, no tratamento do câncer.
E) Ultravioleta.
Alternativa correta: C
Resolução: O texto se refere à radiação gama, visto que possui alta penetração nos tecidos.
Caso queira entender mais sobre como a radiação e a radiatividade podem cair especificamente no Enem, Paola produziu um episódio do podcast RAD ON – Radiação para Leigos sobre o tema:
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