Mostra em SP celebra arte e modo de aprender indígenas


O visitante poderá conhecer práticas pedagógicas, saberes e obras construídas a partir da relação entre território, memória, espiritualidade e vida coletiva. A mostra é uma correalização do Tomie Ohtake com a Associação Selvagem e teve a colaboração dos coordenadores das Escolas Vivas.
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Curadora da mostra, Cristine Takuá, detalha, em entrevista à Agência Brasil, que o projeto Escolas Vivas trata-se de um coletivo que busca transformar a relação do ensinar-aprender, valorizando o que é realmente útil e necessário "na troca constante de saberes que são ancestrais, mas que, por uma arrogância colonial e epistemológica, foram desfigurados numa escola clássica e quadrada”.
“[A exposição revela] que nós estamos existindo, que os povos indígenas existem e que sempre semearam esses pensamentos e essa forma própria de transmitir saberes. Na verdade, todo o território indígena é Escola Viva", conclui a curadora.
As obras presentes na exposição foram produzidas no âmbito de oficinas nos territórios das Escolas Vivas e também na residência Casa Escola Viva, realizada em outubro de 2025 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O encontro reuniu dez artistas indígenas em um processo de criação e troca de saberes.
Obras
Do povo Baniwa, vem a instalação O umbigo do mundo, com trançados de fibra de tucum produzidos pelas mãos de mulheres Baniwa. Os Huni Kuĩ apresentam um pano professor com kenes, grafismos tradicionais que orientam o aprendizado e a transmissão de conhecimentos ligados à sua visão de mundo.
Entre os Maxakali, a instalação coletiva se organiza a partir de mastros - os mīmãnãns - que, segundo a tradição, orientam e tornam possível a presença dos espíritos nos rituais. A instalação Pytü, o Escuro, dos Guarani Mbya, é uma representação do escuro intenso, de onde pode surgir o primeiro suspiro, o primeiro ser, a primeira vida.
Para completar o conjunto, a mostra conta com uma farmácia amazônica, com plantas medicinais, elixires e bálsamos trazidos pelos povos Tukano, Desana e Tuyuka.
Um núcleo dedicado aos mais velhos integra a exposição, com obras de Ailton Krenak, Ehuana Yanomami, Tõrãmu Kẽhíri (Luiz Lana) e Moisés Piyãko. Considerados referências na preservação e transmissão dos conhecimentos indígenas, os mais velhos, afirma a curadora, são aqueles que sustentam - por meio de histórias, cantos e práticas cotidianas - a memória que atravessa o tempo e conecta diferentes planos de existência.
“Para nós, educação não é só alfabetização, não é só teoria, não é só entrar na faculdade. É a gente conseguir lançar uma flecha em encontro ao bem-viver, em encontro à vida. Aprender a pedir licença para entrar, aprender a respeitar todas as formas de vida. Essa é a educação que para nós é verdadeira”, ressalta a curadora.
Ela avalia que as Escolas Vivas podem contribuir para inspirar a sociedade a repensar o modelo de educação vigente no Brasil, mesmo para fora dos territórios indígenas. Ela menciona que o currículo das escolas, muitas vezes, prioriza referências de fora do país.
“Por exemplo, na alfabetização aparece a zebra, o tigre, o elefante, a girafa. E os alunos, as crianças, que estudam na Mata Atlântica não conhecem a cutia, a paca, a lontra, os seres que habitam a Nhe'ẽry [a Mata Atlântica].”
Ela afirma que a mostra é um convite à sociedade para repensar a educação e a relação com a natureza.
"Porque a natureza não é nossa, nós somos uma parte da natureza, uma pequena partícula que constitui toda essa teia de relações. É um convite também a esse despertar de consciência para que todos possam se somar nessa luta para cuidar, para respeitar a natureza como um todo”, diz.



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