Exposição celebra trajetória da Cáritas e transforma memória em instrumento de resistência social
Mostra em Salvador reúne arte, fotografia e histórias dos territórios para marcar os 70 anos da Cáritas Brasileira e os 38 anos da Cáritas Nordeste 3
A memória como ferramenta de transformação social ganhou forma, cor e significado na exposição Corredor de Memórias, aberta na sede da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3, em Salvador. A mostra integra as comemorações pelos 70 anos da Cáritas Brasileira e pelos 38 anos de atuação do Regional Nordeste 3, que acompanha comunidades da Bahia e de Sergipe.
Mais do que uma retrospectiva institucional, a exposição propõe uma imersão na história construída ao lado de populações vulnerabilizadas, movimentos populares, juventudes, comunidades rurais e urbanas. A iniciativa reúne fotografias, instalações artísticas e textos inspirados em experiências vividas nos territórios onde a organização atua.
Idealizada pelo Comitê de Comunicação da Cáritas Nordeste 3, a exposição transforma o espaço físico da entidade em um percurso de reflexão sobre direitos humanos, solidariedade, participação popular e resistência.
Entre os destaques está a instalação Imaginários que Viram Voo, assinada por Allan Lusttosa. A obra reúne pipas produzidas a partir de desenhos e ilustrações criados por adolescentes e jovens participantes de concursos literários promovidos pela instituição desde 2015. Suspensas no ambiente, as pipas simbolizam liberdade, sonhos e o protagonismo das juventudes diante das desigualdades sociais.
A instalação dialoga diretamente com o Programa de Infância, Adolescência e Juventudes (PIAJ), desenvolvido pela Cáritas desde os anos 2000 para fortalecer a participação social de crianças e adolescentes.
Arte que denuncia e reafirma a vida
As fotografias expostas também ajudam a contar a história da organização. Registros feitos por Allan Lusttosa retratam romarias, mobilizações populares, manifestações culturais e religiosas, além de experiências comunitárias construídas ao longo das últimas décadas.
As imagens revelam como esses espaços se consolidam como territórios de denúncia das desigualdades e de defesa da vida. Corpos em caminhada, expressões de fé e ações coletivas aparecem como marcas de uma trajetória pautada pela luta por direitos e pela construção de alternativas para as populações historicamente excluídas.
A mostra Cáritas em Imagens reúne fotografias produzidas em comunidades urbanas e rurais, destacando iniciativas ligadas à organização popular, à solidariedade e à incidência política.


Economia solidária como alternativa
Outro eixo da exposição destaca a Economia Popular Solidária (EPS), uma das áreas estratégicas de atuação da Cáritas Nordeste 3.
Na instalação O Brasil das práticas solidárias sobrepõe o Brasil oficial, colagens, costuras e textos convidam o público a refletir sobre modelos econômicos centrados na cooperação e na geração coletiva de renda. A obra evidencia experiências desenvolvidas em diferentes territórios e reforça a busca por alternativas ao sistema baseado exclusivamente no lucro.
Camisetas contam histórias de luta
Campanhas, projetos sociais, mobilizações populares e ações educativas também ganham espaço na exposição por meio de dezenas de camisetas produzidas ao longo da história da entidade.
Transformadas em uma grande instalação artística, as peças funcionam como documentos afetivos e políticos. Cada estampa carrega fragmentos de momentos históricos, ações de enfrentamento às violências, debates sobre democracia e direitos humanos, além de iniciativas voltadas para juventudes e economia solidária.
Juntas, as camisetas formam um mosaico visual que retrata a diversidade de pautas e territórios alcançados pela Cáritas Nordeste 3.
Água como direito e território de disputa
A relação entre comunidades e recursos naturais também está presente na mostra. Na instalação O que move são as águas, uma canoa presa à parede simboliza a interrupção dos fluxos naturais e as desigualdades no acesso à água.
Pequenas garrafas identificadas com nomes de rios da Bahia e de Sergipe apresentam diferentes níveis de armazenamento, representando de forma simbólica os conflitos em torno desse recurso essencial.
A exposição também traz a instalação Dois Tempos, que retrata a mudança de paradigma no Semiárido brasileiro: da lógica histórica de combate à seca para a perspectiva da convivência com o Semiárido, construída por organizações da sociedade civil como a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), da qual a Cáritas faz parte.
Ao longo do percurso, registros das Romarias da Terra e das Águas reforçam a conexão entre espiritualidade, mobilização popular e defesa dos territórios.
Memória para construir futuro
Para o agente Cáritas e integrante do Comitê de Comunicação, Jerônimo Menezes, participar da construção da exposição foi uma experiência marcada pelo sentimento de continuidade.
“Poder participar desse projeto é como o sangue que percorre o corpo: algo vivo, pulsante e essencial. É revisitar memórias e, ao mesmo tempo, deixar novas memórias para aqueles que virão depois. A memória é ancestral. Precisamos dela para não nos perdermos nos percursos da vida. A memória é vida”, afirma.
Com forte dimensão política e poética, a exposição reafirma que a memória não pertence apenas ao passado. Ela se torna ferramenta de organização coletiva, resistência e construção de esperança.
As obras permanecem abertas para visitação até novembro, quando serão encerradas as celebrações dos 70 anos da Cáritas Brasileira.
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