Dona Mide, guardiã do fandango caiçara e da cultura popular, morre aos 88 anos
A cultura popular brasileira perdeu uma de suas maiores referências. Morreu na última terça-feira (2), aos 88 anos, Cremildes Ferreira Bahr, conhecida nacionalmente como Dona Mide ou Mestra Mide. Reconhecida como a Baronesa do Fandango, ela dedicou mais de cinco décadas à preservação das tradições populares do Paraná e tornou-se símbolo da resistência cultural e da valorização dos saberes ancestrais.
Nascida em Curitiba, Dona Mide construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a cultura, pela defesa da identidade caiçara e pela valorização das raízes afro-brasileiras. Mulher negra, cresceu em uma família profundamente ligada à música e à arte popular, sendo irmã dos compositores Palminor Rodrigues Ferreira, conhecido como Lápis, além de Lalo e Juca, nomes importantes da cena cultural curitibana.
Desde a infância, enfrentou desafios comuns a muitas mulheres brasileiras. Aos 11 anos, já trabalhava como costureira e bordadeira. Paralelamente, desenvolveu uma relação profunda com as manifestações culturais populares que, mais tarde, se tornariam o centro de sua vida e de sua atuação pública.
Ao longo de mais de 56 anos de trajetória, Dona Mide tornou-se uma das principais responsáveis pela difusão do fandango caiçara, manifestação cultural tradicional do litoral paranaense reconhecida como patrimônio cultural brasileiro. Também participou ativamente de rodas de samba, grupos de choro, corais e atividades comunitárias ligadas à cultura popular.
Em 1988, fundou o grupo Meu Paraná, iniciativa que levou o fandango para diferentes estados do Brasil e para apresentações internacionais, ampliando o reconhecimento da cultura caiçara e fortalecendo a preservação dessa tradição.
Reconhecimento da sabedoria popular
O reconhecimento institucional de sua contribuição ocorreu em dezembro de 2024, quando recebeu o título de Doutora Honoris Causa pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR). A homenagem destacou a importância dos conhecimentos tradicionais e da memória oral como formas legítimas de produção de saber.
Para pesquisadores, artistas e comunidades tradicionais, Dona Mide representava a ponte entre passado e futuro, mostrando que a cultura popular é uma ferramenta fundamental de pertencimento, identidade e resistência.
Em nota de pesar, a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná destacou a relevância de sua atuação.
“Dona Mide construiu pontes entre tradição e futuro, inspirando artistas, pesquisadores e comunidades por meio de sua dedicação incansável à cultura e ao patrimônio imaterial do Paraná.”
A Fundação Cultural de Curitiba também lamentou a perda da artista. Segundo o presidente da instituição, Marino Galvão Júnior, Dona Mide dedicou sua vida à preservação da cultura popular e ao fortalecimento das tradições paranaenses.
Um legado que atravessa gerações
Mais do que uma artista, Dona Mide deixa um legado de resistência cultural e valorização da ancestralidade. Sua atuação contribuiu para manter vivas manifestações populares muitas vezes invisibilizadas pelas políticas culturais e pelos processos de urbanização.
Sua história dialoga com a realidade de diversas comunidades periféricas, quilombolas, ribeirinhas e tradicionais do país, que seguem lutando pela preservação de suas identidades culturais e pela valorização de seus territórios.
Com sua partida, o Paraná perde uma de suas maiores referências culturais. Mas sua presença permanece viva nos bailados do fandango, nas rodas de samba, nos versos populares e na memória coletiva de quem reconhece a cultura como patrimônio e instrumento de transformação social.
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