VENDILHÕES DO TEMPLO E VENDILHÕES DA PÁTRIA
Ao longo dos meus 25 anos à frente da Agência de Notícias das Favelas, aprendi que a fé pode ser uma das forças mais transformadoras da vida humana. Vi mães encontrarem esperança em meio à dor. Vi jovens abandonarem caminhos de violência para reconstruírem suas histórias. Vi igrejas abrirem suas portas para alimentar quem tinha fome e acolher quem não tinha para onde ir. Foi convivendo com essa fé simples, sincera e comprometida com o próximo que aprendi a admirar o Evangelho.
Talvez por isso me incomode tanto quando a fé é utilizada como instrumento de disputa política.
Não me refiro à participação de cristãos na política. Isso é legítimo. A democracia pressupõe a participação de todos os setores da sociedade. O problema surge quando o nome de Jesus deixa de ser inspiração para se tornar ferramenta eleitoral; quando o púlpito deixa de ser espaço de reflexão espiritual para se transformar em palanque; quando a mensagem do amor é substituída pela lógica do inimigo.
Recentemente, chamou minha atenção a postura do presidente Lula ao afirmar que não participaria da Marcha para Jesus. Concorde-se ou não com suas posições políticas, sua justificativa foi a de não transformar um evento religioso em ato político. Em um país marcado por tanta polarização, essa reflexão merece ser considerada.
Do outro lado, assistimos com frequência lideranças políticas utilizarem símbolos religiosos para atacar adversários, dividir a sociedade e transformar divergências políticas em batalhas entre o bem e o mal. Essa estratégia pode render aplausos momentâneos, mas produz um dano profundo à própria fé cristã. Afinal, Jesus nunca ensinou seus seguidores a demonizar quem pensa diferente.
Como ex-missionário evangélico, conheço bem a força que uma palavra dita em um púlpito pode ter. E justamente por conhecer essa força acredito que ela deve ser usada com responsabilidade. O Evangelho não é propriedade de partidos, candidatos ou grupos ideológicos. Jesus não fundou uma legenda. Não disputou eleições. Não convocou seguidores para odiar adversários. Seu compromisso era com a verdade, a justiça e o amor ao próximo.
Há outra questão que me inquieta profundamente. Sou da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais. Aprendi, ainda jovem, valores como patriotismo, soberania nacional e respeito às instituições brasileiras. Por isso tenho dificuldade em compreender atitudes de lideranças políticas que buscam, no exterior, apoio para disputas internas do Brasil. Podemos divergir sobre governos, partidos e projetos de país. Isso faz parte da democracia. Mas existe uma linha que separa o debate político dos interesses permanentes da nação.
Talvez exista uma conexão entre essas duas questões. Assim como Jesus denunciou os vendilhões do templo por transformarem a fé em negócio, precisamos refletir sobre aqueles que transformam o patriotismo em instrumento de conveniência política. Existem os vendilhões do templo, que comercializam a fé. E existem os vendilhões da pátria, que utilizam símbolos nacionais apenas quando isso serve aos seus interesses.
O Brasil precisa de menos fanatismo e mais compromisso com a verdade. Precisa de menos discursos de ódio e mais capacidade de diálogo. Precisa de líderes religiosos que apontem para Cristo, não para projetos de poder. E precisa de lideranças políticas que coloquem o país acima das disputas eleitorais.
A fé que conheci nas favelas nunca foi uma fé de palco. Foi uma fé de serviço. Uma fé que alimenta, acolhe, consola e transforma. É essa fé que continua fazendo sentido para mim. E é essa fé que deve permanecer de pé quando todos os palanques forem desmontados.
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