Tempo para viver: trabalhadores veem no fim da escala 6×1 a chance de recuperar a rotina
A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 reacendeu o debate sobre as condições de trabalho no Brasil e os impactos da jornada na qualidade de vida dos trabalhadores. Comum em setores como comércio, serviços, segurança privada e atendimento ao público, a escala determina seis dias consecutivos de trabalho para apenas um dia de descanso.
Para defensores da medida, a mudança representa a possibilidade de uma relação mais equilibrada entre vida profissional e pessoal, garantindo mais tempo para descanso, convivência familiar, educação e lazer. Entre os trabalhadores, a expectativa é de que a redução da carga de trabalho permita recuperar aspectos da vida que muitas vezes acabam sacrificados pela rotina exaustiva.
É o caso de Janaína Freire (38), que trabalha em um supermercado na Zona Sul do Rio de Janeiro e vê na proposta uma oportunidade de estar mais presente na vida dos filhos. Mãe de uma bebê de 9 meses e de um menino de 8 anos, ela relata que a rotina atual praticamente elimina os momentos de convivência em família.
Todos os dias, Janaína sai de casa antes das 7h da manhã. Antes de seguir para o trabalho, deixa a filha mais nova com uma cuidadora e o filho na escola em período integral. O retorno para casa acontece apenas no início da noite, depois de buscar as duas crianças.
“Quando chego em casa, já estou muito cansada e eles também. O tempo que temos juntos é para dar jantar, tomar banho e se preparar para dormir”, conta.
Segundo ela, os momentos de lazer e convivência são raros. Sua única folga semanal acontece às quintas-feiras, mas, nesse dia, o filho mais velho continua na escola durante grande parte do período. “Praticamente não tenho tempo de qualidade com eles. Não consigo brincar, passear ou fazer atividades em família como gostaria”, afirma.
Para Janaína, uma jornada com mais dias de descanso significaria a chance de acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos e participar de momentos que hoje são limitados pelo trabalho.
A possibilidade de reorganizar a rotina também é vista como uma oportunidade para retomar projetos pessoais e acadêmicos. É o caso de Carlos Eduardo, de 22 anos, entregador em uma farmácia e estudante do sexto período de Administração.
Carlos começou a trabalhar para complementar a renda e conseguir pagar a mensalidade da faculdade. No entanto, a dificuldade de conciliar os estudos com a escala 6×1 acabou comprometendo seu desempenho acadêmico.
“Eu estava perdendo muitas aulas e não conseguia acompanhar o conteúdo. Chegou um momento em que precisei escolher entre continuar trabalhando ou manter os estudos”, relata.
Diante das dificuldades, ele decidiu trancar a graduação no fim do ano passado. Desde então, vinha avaliando até mesmo a possibilidade de procurar outro emprego que permitisse compatibilizar trabalho e formação profissional.
Com a perspectiva de uma jornada que ofereça mais tempo livre, Carlos acredita que poderá retomar os estudos e concluir a faculdade. “Meu objetivo é me formar. Com mais tempo disponível, acredito que vou conseguir voltar a estudar e acompanhar melhor as aulas”, diz.
Para ele, a mudança representa não apenas uma melhoria na qualidade de vida, mas também a possibilidade de retomar um projeto profissional interrompido pela rotina de trabalho.
Histórias como as de Janaína e Carlos ilustram os impactos da escala 6×1 para além do ambiente profissional. Enquanto uma mãe busca mais tempo para acompanhar o crescimento dos filhos, um jovem trabalhador espera recuperar a oportunidade de concluir o ensino superior. Em comum, ambos enxergam no fim desse modelo de jornada a possibilidade de reconstruir aspectos importantes da vida que hoje ficam em segundo plano diante das exigências do trabalho.
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