PEC que reduz jornada de trabalho gera expectativa de mais tempo para família, saúde e descanso
Mais tempo para a família, para cuidar da saúde e para descansar. Essas são algumas das expectativas de trabalhadores diante da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 e uma reorganização da jornada de trabalho, sem redução salarial. A proposta representa uma das discussões mais relevantes sobre relações de trabalho no Brasil nas últimas décadas.
Dados do Ministério do Trabalho apontam que cerca de 14,8 milhões de trabalhadores contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) atuam atualmente no modelo 6×1, que prevê seis dias consecutivos de trabalho para apenas um dia de descanso. Para muitos profissionais, especialmente moradores de comunidades tradicionais, favelas e periferias, a ampliação das folgas pode significar mais qualidade de vida, fortalecimento dos vínculos familiares e melhores condições de saúde física e mental..
É o caso da comerciária Telma Vieira, de 33 anos. Mãe de uma criança pequena, ela trabalha em uma loja de roupas de segunda a sábado, cumprindo uma jornada de 44 horas semanais. Segundo ela, o único dia de folga acaba sendo ocupado por tarefas domésticas e compromissos acumulados ao longo da semana.
“Quando chega o domingo, que é meu único dia livre, eu praticamente não descanso. É o dia de lavar roupa, arrumar a casa, fazer comida, organizar as coisas do meu filho e deixar tudo pronto para a semana seguinte”, relata.
Para Telma, a mudança na jornada pode representar mais tempo para cuidar da saúde e da família.
“Eu conseguiria descansar de verdade, cuidar mais da minha saúde, da minha aparência e da minha saúde mental também. Acho que até a convivência com meu filho seria melhor, porque eu teria mais disposição e mais tempo para aproveitar com ele”, afirma.
A dificuldade de conciliar trabalho, descanso e vida pessoal também faz parte da rotina de Darlan Pereira, que trabalha na escala 6×1. Segundo ele, o único dia de folga da semana costuma ser consumido por compromissos que não conseguem ser resolvidos durante os dias de trabalho.”Quando chega o dia de folga, geralmente já tem uma lista de coisas para resolver”, conta.
Para Pereira, um dos principais benefícios da redução da jornada seria a possibilidade de cuidar melhor da própria saúde. Ele afirma que consultas, exames e retornos médicos muitas vezes são adiados para evitar faltas ao trabalho.
“Se eu tivesse mais um dia de folga, provavelmente usaria esse tempo para cuidar melhor da minha saúde, fazer exames de rotina e resolver essas questões com mais tranquilidade”, afirma Pereira.
O tempo além das 44 horas
Além da jornada formal de trabalho, o desgaste diário vai além das horas registradas na carteira. O tempo gasto em deslocamentos e as responsabilidades domésticas também fazem parte da rotina e reduzem as oportunidades de descanso.
Essa é a realidade de Luane Silva, moradora de São Paulo. Ela afirma que passa horas por dia no transporte público para chegar ao trabalho e que, ao retornar para casa, ainda precisa lidar com tarefas domésticas e cuidados familiares.
“Quando somo o tempo que passo no transporte, percebo que minha dedicação ao trabalho vai muito além das oito horas por dia. Acordo muito cedo para conseguir chegar no horário e, quando chego em casa, já estou cansada física e mentalmente”, relata.
Segundo Silva, a sobrecarga faz com que atividades importantes, como exercícios físicos e momentos de autocuidado, sejam constantemente adiados. “A gente acaba sempre deixando isso para depois porque está exausta. O descanso vira prioridade porque o corpo já não aguenta mais”, afirma.
Ela também acredita que mais tempo de descanso poderia trazer benefícios para o próprio ambiente de trabalho. Atuando com atendimento ao público, a trabalhadora diz que o cansaço interfere diretamente na atenção e na produtividade.
“Já cometi erros por estar muito cansada ou estressada. Quando a pessoa está sobrecarregada, fica mais difícil manter a atenção, a paciência e a produtividade”, conta.
Um estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenado pela pesquisadora Marilane Teixeira, aponta que a redução da jornada de trabalho pode contribuir para o aumento da produtividade e para a geração de empregos.
Para Luane Silva, a discussão sobre o fim da escala 6×1 ultrapassa a simples redução da carga horária formal.
“Às vezes as pessoas olham apenas para as 44 horas registradas no contrato, mas muitos trabalhadores passam muito mais tempo do que isso dedicados ao trabalho por causa dos deslocamentos. No final, o que a gente pede é mais equilíbrio entre trabalho, saúde, família e qualidade de vida.”
Nas comunidades tradicionais, favelas e periferias brasileiras, onde grande parte da população enfrenta longos trajetos diários entre casa e trabalho, o debate sobre a redução da jornada ganha uma dimensão ainda mais ampla. Para esses trabalhadores, mais dias de descanso podem representar não apenas lazer, mas também acesso a cuidados de saúde, qualificação profissional, convivência familiar e participação na vida comunitária.
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