Permanecer na universidade ainda é desafio para jovens da Chapada Diamantina
Passar no vestibular representa apenas o início da caminhada para muitos estudantes da Chapada Diamantina. Entre longos deslocamentos, dificuldades financeiras e problemas no transporte público, jovens da zona rural e de cidades do interior seguem enfrentando barreiras diárias para acessar e permanecer no ensino superior.
A realidade afeta principalmente estudantes de baixa renda que dependem de ônibus disponibilizados pelas prefeituras para frequentar universidades em Seabra, município que concentra instituições de ensino na região. Muitos saem de casa ainda durante a tarde e só conseguem retornar à noite, enfrentando uma rotina desgastante em busca de melhores oportunidades de vida.
Além do cansaço provocado pelas viagens diárias, estudantes relatam problemas recorrentes, como ônibus quebrados, atrasos, esquecimento de passageiros e dificuldades para chegar aos pontos de embarque, especialmente em comunidades rurais e periferias mais afastadas.
A estudante de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Amanda Cruz, conta que morava a mais de 100 quilômetros de Seabra e precisou recorrer ao programa Mais Futuro para conseguir continuar estudando. Atualmente vivendo na residência estudantil, ela relembra as dificuldades enfrentadas antes da mudança.
“Eu fazia um trajeto em que precisava estar no ponto de ônibus às 17h40. Ficava esperando até as 18h, quando o ônibus chegava, e só conseguia chegar aqui na cidade por volta das 19h. Era muito cansativo, não somente para mim, mas também para o meu pai, que me levava até o ponto de ônibus”, relata.
Para Cleudimara Souza, também estudante da Uneb, os desafios continuam fazendo parte da rotina. Por atuar em atividades na comunidade onde vive, ela optou por não se mudar para Seabra e segue enfrentando dificuldades no deslocamento diário.
“Com mais alunos estudando, a prefeitura disponibiliza um transporte para ajudá-los a chegar à instituição de ensino, mas ainda há dificuldades, pois geralmente o transporte aguarda os estudantes na cidade vizinha e alguns precisam ir de carona até o ponto de ônibus”, afirma.
As dificuldades financeiras também pesam no processo de permanência estudantil. A estudante Eloisa Carmo, que veio de uma comunidade rural, decidiu morar em Seabra após perceber que seria inviável realizar o deslocamento diariamente. Hoje residente na moradia estudantil e beneficiária da Bolsa Permanência, ela afirma que o alto custo de vida ainda ameaça a continuidade dos estudos de muitos jovens.
“Aqui, o custo de vida é muito alto e os trabalhos não são bem remunerados. Muitas vezes não assinam carteira, não oferecem salário mínimo e o aluguel é caríssimo. A gente, enquanto estudante de baixa renda, não tem condições, principalmente porque muitos ainda não possuem profissão e encontram dificuldades para conseguir emprego”, destaca.
Mesmo com avanços nas políticas de assistência estudantil, estudantes seguem reivindicando melhorias nas condições de permanência universitária. O tema esteve entre os debates do 47º Pré-Encontro Nacional de Casas de Estudantes (Pré-ENCE), realizado recentemente no Campus XXIII da Uneb, em Seabra, reunindo discussões sobre moradia, alimentação, transporte e políticas públicas voltadas às juventudes periféricas e do interior.

Para os estudantes, permanecer na universidade é também um ato de resistência diante das desigualdades sociais e territoriais que atingem moradores de periferias, comunidades rurais e cidades do interior da Bahia.
“É difícil, mas a vontade de realizar um sonho, concluir o curso e ajudar financeiramente a família faz tudo valer a pena”, conclui Cleudimara Souza.
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