Comunidades tradicionais da Bahia denunciam impactos da mineração e fortalecem resistência
O avanço da mineração no Brasil tem provocado impactos profundos em comunidades tradicionais, quilombolas e territórios rurais periféricos. Em 2023, o país registrou 901 ocorrências de conflitos relacionados à mineração, atingindo diretamente pelo menos 2.810.230 pessoas, segundo o Relatório Anual do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração. Minas Gerais concentrou 31,9% dos casos, seguido do Pará (13,7%) e da Bahia (9%).
As principais violações registradas envolvem disputas pelo uso da terra (62,9%) e da água (27,3%), afetando diretamente comunidades tradicionais, agricultores familiares e povos quilombolas. Em resposta ao avanço das mineradoras, moradores têm fortalecido estratégias coletivas de resistência, utilizando a comunicação popular como ferramenta de denúncia, mobilização e defesa dos territórios.
Na Bahia, uma das organizações que atua nesse processo é o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), que articula comunidades atingidas e promove ações de formação política e comunicação comunitária.
Segundo Fabiano Paixão, secretário e militante do movimento, o MAM surgiu da necessidade de fortalecer nacionalmente a luta das populações afetadas.
“Questionamos o atual modelo minerário e defendemos a soberania popular: que o povo decida onde, como e quanto minerar”, afirma.
Paixão destaca que o modelo de exploração mineral no Brasil historicamente privilegia interesses econômicos e exclui as populações diretamente impactadas das decisões sobre seus territórios.

Quilombo Bocaina denuncia impactos ambientais e sociais em Piatã
Na comunidade quilombola Bocaina, localizada em Piatã, na Chapada Diamantina, moradores relatam mudanças drásticas no cotidiano após a chegada da mineração.
Vanusia Santos, coordenadora regional do MAM e moradora da comunidade, descreve uma série de impactos ambientais e sociais:
“Poluição das nascentes, rios e mananciais, fluxo intenso de carretas, poeira nas plantações, explosões constantes, barulho de máquinas funcionando 24 horas por dia, rachaduras nas casas e adoecimento físico e emocional.”
Além das consequências ambientais, moradores denunciam divisões internas provocadas pela presença da mineradora. Vieira, nome fictício utilizado para preservar a identidade de uma moradora da comunidade, relata que o território passou a conviver com tensões permanentes.
“Antes levávamos uma vida simples na roça. Hoje precisamos entender processos judiciais, participar de reuniões e audiências. As festas da comunidade já não têm a mesma alegria.”
Apesar das dificuldades, a comunidade passou a se organizar por meio da Associação Comunitária Quilombola da Bocaina, responsável por articular denúncias e ações públicas.
Em 2021, moradores participaram de uma audiência pública sobre os impactos da mineração. No ano seguinte, a empresa foi notificada e deixou de operar com extração no território.
Durante a pandemia da covid-19, a comunicação digital se tornou uma das principais ferramentas de mobilização da comunidade. Segundo Vanusia Santos, moradores utilizaram transmissões ao vivo no YouTube para chamar atenção das autoridades.
“Enquanto acontecia uma live do promotor Augusto Matos, os moradores escreviam no chat: ‘SOS Bocaina e Mocó pedem socorro’. A mobilização deu resultado.”
A comunidade também utiliza as redes sociais para denunciar violações e divulgar informações sobre o território.
Comunicação popular fortalece resistência nas periferias rurais
As experiências das comunidades atingidas dialogam com o conceito de comunicação popular defendido pela pesquisadora Cicilia Peruzzo. Segundo a autora, esse modelo de comunicação atua na promoção da justiça social, do fortalecimento da cidadania e da visibilidade política de grupos historicamente silenciados.
A comunicação popular se diferencia por ser horizontal, participativa e voltada aos interesses coletivos das comunidades. Em territórios periféricos e tradicionais, ela tem sido fundamental para romper o apagamento promovido pelos grandes meios de comunicação.
Com o crescimento das plataformas digitais, comunidades passaram a utilizar redes sociais, rádios comunitárias, blogs, grupos de WhatsApp e canais independentes para divulgar denúncias e fortalecer mobilizações.
Comunidade de Itapicuru denuncia perda de território e impactos à saúde
No município de Jacobina, também na Bahia, moradores da comunidade de Itapicuru convivem há anos com os impactos da mineração.
Uma moradora, que preferiu não ser identificada, relata que áreas antes utilizadas para agricultura, criação de animais e atividades extrativistas foram sendo destruídas.
“As terras deixaram de servir para plantar. Perdemos culturas tradicionais e até a casa de farinha, que era usada por toda a comunidade.”
Ela também denuncia aumento da poeira, problemas respiratórios, desmatamento, barulho excessivo e contaminação das águas.
Segundo os moradores, a ausência de informações transparentes dificultou o entendimento dos processos relacionados à instalação da mineradora.
“Em 2008 fizeram uma reunião chamada de consulta pública, mas ninguém explicou que a lista de presença seria usada para validar o empreendimento.”
A partir disso, a comunidade começou a se organizar em associação e buscar apoio do Ministério Público.
Sem espaço na mídia tradicional, moradores passaram a utilizar redes sociais e grupos de WhatsApp para compartilhar denúncias e relatar os impactos da mineração.
“Tentamos falar em rádios locais, mas muitas vezes cortam nossas falas. Então usamos os espaços públicos e nossas próprias redes para denunciar o que estamos perdendo.”
Quilombo Lagoa dos Bois enfrenta mudanças no modo de vida
Na comunidade quilombola Lagoa dos Bois, em Nordestina, os impactos da mineração também alteraram profundamente o cotidiano local.
Elizete Moura relata que os rejeitos da mineração passaram a fazer parte da paisagem da comunidade.
“Hoje nossos quintais convivem com uma serra de rejeitos e com o fluxo intenso de carros. As crianças já não se sentem seguras para brincar.”
Com apoio do MAM, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e de outras entidades, a comunidade passou a fortalecer sua organização política e territorial.

As ações incluem denúncias ao Ministério Público, formação de lideranças e produção de materiais de comunicação popular.
Segundo Fabiano Paixão, o MAM atua por meio de núcleos de base que produzem boletins, cartilhas, documentários, audiocasts e conteúdos para redes sociais.
Já Adrielly Regis, militante do movimento, afirma que a comunicação também é parte da soberania popular.
“A principal forma de comunicação ainda é o contato presencial, o corpo a corpo. Mas também desenvolvemos materiais populares com linguagem acessível.”
Ela relembra ainda uma mobilização histórica na região de Caetité e Licínio de Almeida, marcada por mais de 100 dias de bloqueio em protesto contra os impactos provocados pela mineração.
“A poeira contaminava plantações, casas e causava problemas respiratórios. O bloqueio durou 112 dias e foi construído coletivamente pelas comunidades.”
Comunicação e território como campos de disputa
Para os movimentos sociais, a disputa pela narrativa sobre os impactos da mineração também acontece no campo da comunicação.
Fabiano Paixão afirma que o monopólio midiático dificulta que as denúncias das comunidades ganhem visibilidade.
“Poucas famílias controlam os meios de comunicação e definem o que a população vai ver e ouvir.”
A professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Dra. Gislene Moreira, especialista em conflitos socioambientais e coordenadora do Observatório dos Conflitos Ambientais da Chapada Diamantina (OCA), reforça a crítica.
“A mídia tradicional está vinculada aos grupos de poder e raramente reflete o olhar de quem vive os conflitos nos territórios.”
Segundo ela, democratizar a comunicação também significa fortalecer soberanias territoriais, alimentares e culturais.
Em meio ao avanço da mineração sobre comunidades tradicionais, quilombos e periferias rurais, a comunicação popular segue funcionando como ferramenta de denúncia, memória e resistência coletiva. São essas vozes, muitas vezes invisibilizadas, que continuam sustentando a defesa dos territórios e o direito das comunidades de permanecerem em suas terras.
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