007 First Light não é o Hitman que eu queria, mas é o 007 que eu precisava
James Bond está de volta no mundo dos games – e desta vez é com mais uma história de origem. O espião mais famoso do MI6 é protagonista de 007 First Light, o mais novo jogo do estúdio dinamarquês IO Interactive, mais conhecido pela franquia Hitman.
O jogo foi apresentado oficialmente em 4 de junho de 2025, prometendo ser mais uma aventura recheada de ação protagonizada pelo agente. Após muito tempo de espera, o título agora chega ao PC, PS5 e Xbox Series S e X, bem como no Nintendo Switch 2.
Se você estava ansioso para ver o que a nova aventura de James Bond traz, confira agora a review completa do Voxel – sem spoilers da história.
Narrativa cinematográfica acompanha James Bond jovem
Em First Light, Bond tem 26 anos e chegou ao MI6 após sair vivo — e de forma muito heroica — de uma missão militar complicada. Assim como em outras versões do personagem, o agente é carismático e sedutor, conseguindo sair de situações apertadas na lábia, mas também capaz de lidar com pancadarias e tiroteios intensos.
Desde o começo, o jogo estabelece o próprio tom da narrativa: é uma história de espionagem fantástica, com gadgets tecnológicos praticamente mágicos, um roteiro muito conveniente a Bond e muitas piadas verbalizadas ou intrínsecas às situações. Para evitar spoilers, a campanha envolve conflitos políticos internacionais, mas com motivações simples e palpáveis — característica até ressaltada por um personagem. O jogo sabe que é galhofa e age de acordo.

Mesmo assim, 007 First Light guarda set pieces de impacto (e quase inacreditáveis) e uma variedade de plot twists para deixar o jogador envolvido. Em termos de ritmo, o jogo não peca em nada, nem mesmo nos monólogos dos vilões extremamente convenientes para o protagonista.
Gráficos impressionam com realismo e volume
A IO Interactive é mestre na criação de ambientes envolventes, ricos em detalhes e cheios de vida — e fez isso muito bem em 007. O visual do título é belíssimo mesmo com gráficos no "médio", e o estúdio aproveitou as capacidades da Glacier Engine, sua engine proprietária, para encher os ambientes públicos de NPCs e criar cenários riquíssimos.
A iluminação, as texturas e as expressões faciais dos personagens mais importantes da história são os aspectos que mais chamam a atenção. Mesmo sem um computador de ponta, os gráficos se mantêm notavelmente bonitos e a performance, estável. Vale conferir a análise técnica do TecMundo sobre as tecnologias gráficas de 007 First Light.

A atuação dos personagens é fidedigna o suficiente para transmitir emoções verdadeiras, sem destoar com o que é esperado para cada cena. A dublagem segue o mesmo rumo, sempre condizente com o momento – o jogo, inclusive, traz localização em português brasileiro nas legendas e menus.
Gameplay equilibra tom cinematográfico e fórmula da IO Interactive
007 First Light é um jogo de ação e aventura pautado em espionagem desenvolvido pela IO Interactive, então é óbvio que o foco aqui seria stealth. Quando o jogo foi anunciado, logo fiquei animado com a novidade — afinal, a IO Interactive acumulou muita experiência nas dinâmicas de furtividade por meio da franquia Hitman.
De cara, o novo jogo prometia ser mais uma rara adição ao gênero. De certa forma, é — mas não exatamente como eu imaginava. A IO Interactive fez adaptações em sua famosa fórmula para alcançar um resultado mais palatável para um grande público – e isso funciona muito bem.
007 First Light tem um roteiro forte
Enquanto Hitman: World of Assassination é composto por mapas gigantes e infinitas possibilidades de interação, 007 First Light é mais pautado em narrativa e linearidade. Em termos de comparação, o novo jogo de James Bond é muito mais próximo de Hitman: Absolution do que da franquia mais recente — foco em narrativa, soluções lineares, personagens mais envolventes e furtividade simplificada.

007 First Light tem um roteiro pré-determinado e é cheio de set pieces de ação, explosões e outras mentiradas do gênero. Porém, para garantir que esses eventos aconteçam, o jogo precisa ser fiel a esse roteiro.
A consequência disso recai sobre o jogador: 007 First Light desapega de boa parte da liberdade característica do Agente 47 em favor de uma jogatina mais previsível, padronizada e sem espaço para criatividade. O título não sabe lidar muito bem quando Bond age de forma inesperada para resolver problemas, geralmente exigindo que o jogador retroceda para seguir os passos definidos pelo roteiro. Se o agente chega ao objetivo por um caminho não previsto, é possível que precise voltar e fazer o "caminho ideal" para destravar a próxima cena — no meu caso, isso gerou até um softlock em determinado momento.
Isso não é exatamente um problema na natureza de 007 First Light, mas deve desagradar jogadores que esperam um stealth mais livre. A história é forte e precisa que as peças estejam no lugar para que tudo aconteça como deveria.
Valorização do improviso
Diferente de Hitman, que gratifica o jogador que age com maior cuidado e meticulosidade, 007 é mais pautado no improviso. O jogador pode rapidamente lidar com guardas sem chamar a atenção de outros e conta com gadgets futuristas que tiram adversários do caminho.

As opções de interação são limitadas e o jogo deixa claro os caminhos que você pode seguir, colocando no ambiente as pistas do que deve ser feito. Por exemplo: há quatro inimigos na sua frente e você precisa lidar com eles? Olhe para cima e perceba um lustre gigante que pode cair e deixar todos desacordados. Não sabe para onde ir? Procure por elementos azuis no cenário — tapetes, caixas e tintas — que sinalizam locais que Bond pode escalar ou usar para se agachar.
Os gadgets do arsenal de Bond valorizam essa abordagem. O celular com dardo é uma ótima alternativa para tirar alguém do caminho; o relógio Q consegue hackear praticamente qualquer dispositivo eletrônico à distância. Apesar de óbvias, as soluções são satisfatórias e oferecem um certo nível de desafio para o público esperado para 007 First Light. Para avançar sem chamar a atenção, o jogador precisará saber onde os inimigos estão, tirar alguns do caminho e acionar distrações pelo ambiente — mas nada tão complexo quanto memorizar rotinas de NPCs ou manejar disfarces.
Bond também adiciona algumas cartas na manga. O agente pode atrair inimigos com um assovio, fingir rendição para evitar brigas maiores e blefar.
O blefe é uma mecânica que permite distrair NPCs com uma desculpa esfarrapada para sua presença em ambientes restritos, funcionando com inimigos individuais ou grupos inteiros, mas por tempo limitado. Essa ferramenta valoriza o improviso e adiciona camadas à personalidade de charlatão do espião.

Quando o caldo engrossa, a pancadaria é intensa. A coreografia de luta é previsível tanto no espião quanto nos inimigos, sem exigir muito para lidar com uma sala cheia de adversários. O diferencial, porém, está na apresentação: os golpes quebram o cenário, explodem coisas e mantêm a ação sempre no alto. O combate é raso, mas é absoluto cinema.
Duração da campanha
A campanha de 007 First Light dura cerca de 20 horas — o que não é muito para um jogo na mesma faixa de preço. Para alongar o tempo de jogatina, o título oferece simulações e outros desafios que, no escopo deste review, não foram avaliados.
De qualquer forma, a história é composta por cenas variadas, puzzles curtos e trechos de plataforma e parkour. Nada muito inspirado ou complicado, mas que ajudam a intercalar os momentos de ação e furtividade.
O jogo também conta com um seletor de capítulos que permite retornar para partes específicas da história e rejogá-las, algo útil para encontrar segredos e colecionáveis escondidos.
Conclusão: 007 First Light é o jogo que James Bond merecia
James Bond já não protagonizava nenhum jogo há mais de uma década, e 007 First Light era exatamente o que ele precisava para retornar ao formato. O jogo é feito com capricho, com uma história megalomaníaca no ponto ideal e personagens cativantes o suficiente para prender o jogador.

No meu caso, não foi exatamente o Hitman que eu queria, mas provavelmente o 007 que eu precisava. Cheguei até a rir em determinadas cenas — feito raro para um jogo.
É natural que jogadores mais apegados ao gênero stealth se sintam frustrados pela simplificação das mecânicas, mas o novo 007 da IO Interactive não é exatamente para esse público. A proposta da desenvolvedora é atingir uma audiência maior, indo desde fãs de games cinematográficos até fãs de filmes de ação e espionagem que nunca tiveram contato com videogames — e ela acerta em cheio nisso.
Apesar do tempo curto de campanha, 007 First Light é um bom jogo para quem busca uma aventura single-player em terceira pessoa. É um dos lançamentos mais marcantes da geração e, certamente, um novo marco para a franquia de James Bond. Se tudo der certo, o agente deve voltar numa sequência – mais do que merecida.
Nota do Voxel: 95
Prós
- História megalomaníaca cativante, cheia de set pieces marcantes, personagens bem desenvolvidos e bem ritmada;
- Gráficos (iluminação, textura e personagens) imersivos;
- Ambientes abertos e fechados muito bem trabalhados e ricos em detalhes;
- Stealth simples e fácil de lidar;
- Bond, James Bond.
Contras
- Softlocks que exigiram reinicialização de cenas;
- Crashes eventuais durante cenas;
- Erros de tradução ou digitação nas legendas em português brasileiro.
Uma cópia de 007 First Light foi concedida ao Voxel pela IO Interactive para a realização deste review. O jogo foi testado num computador equipado com Ryzen 5 3600, Nvidia RTX 2060 Super e 16 GB de RAM. Gostou do review? Confira mais análises de jogos no Voxel.



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