Entre o aço e o calor: como um morador do Arará transformou o próprio telhado em refúgio
O sol bate diretamente nas chapas de aço do telhado enquanto Luis Cassiano tenta encontrar um pouco de ar fresco sentado no último andar de sua casa, na favela do Arará, na região central do Rio de Janeiro.
Nas casas cobertas por telhas metálicas, comuns em muitas favelas cariocas, o calor fica retido e transforma os pequenos cômodos em verdadeiros fornos.
Essa é a realidade enfrentada diariamente por milhares de moradores do Rio, onde as altas temperaturas já fazem parte da rotina. Em janeiro de 2026, a cidade registrou a maior temperatura do ano até então: 41°C em Santa Cruz, segundo o Sistema Alerta Rio, no dia 12.
Entre as pessoas que convivem diariamente com os impactos do calor extremo está Luis Cassiano, de 56 anos.
Luis mora com a mãe, hoje com 96 anos, em uma casa de quatro andares no Arará, em Benfica. Antes de viver na favela, passou a infância e a juventude na Barra da Tijuca, cercado pela natureza e próximo à praia.
A mudança aconteceu quando ele tinha 25 anos. Desde então, a paisagem mudou completamente: no lugar das árvores e áreas verdes, vieram ruas estreitas, casas coladas umas às outras e a linha férrea cortando a região.
Foi também depois da mudança que começaram os problemas de saúde. Sensível ao calor, Luis conta que começa a passar mal quando a temperatura ultrapassa os 30°C. O calor acumulado dentro de casa, especialmente após voltar do trabalho, também provocava crises de ansiedade.
Ele precisava encontrar uma solução.
A criação de um telhado verde periférico
A ideia surgiu a partir de uma necessidade pessoal: tornar a casa mais fresca e reconectar-se com a natureza. “O que me motivou foi essa necessidade de estar em um lugar mais fresco e também o contato com o verde, o contato com a natureza”, conta.
A ideia, porém, veio de alguém acostumado a um clima bem diferente do brasileiro. Um amigo que morou na Alemanha e sugeriu que ele pesquisasse sobre telhados verdes.
“Ele viu minha necessidade e falou: ‘Cassiano, pesquisa sobre telhados verdes. Talvez isso possa ajudar'”, relembra.
Mas adaptar a técnica europeia à realidade das favelas brasileiras não foi simples, e isso exige outra técnica.

Foto: Maria Alex Botansen

Foto: Maria Alex Botansen
Diferença entre Alemanha e Brasil
Segundo Luis, os telhados das casas brasileiras, especialmente nas favelas, não possuem a mesma estrutura robusta das construções europeias. “Na Alemanha, você pode usar vários tipos de técnicas. Em mansões, em casas de elite, você vê telhados fantásticos”, explica.
Ele aponta para a cobertura acima de sua cabeça e completa:
“Se você colocar isso aqui de terra lá em cima, o telhado vai cair por causa do peso das árvores e das plantas.”
Além da estrutura, outro desafio importante são as raízes das plantas. Nas primeiras tentativas de implantação de telhados verdes em comunidades, muitos moradores utilizaram grama, que acabou causando infiltrações.
“A grama cria raízes muito fortes e perfurantes. De repente, a pessoa olhava para cima e já tinha raiz atravessando o teto. Infiltrava tudo”, afirma.
Há 14 anos, Luis desenvolve uma técnica adaptada à realidade das favelas. Desde então, garante que nunca teve rachaduras ou infiltrações no telhado.
Como funciona o telhado verde
Para construir o telhado verde, Luis utiliza plantas rupícolas e epífitas, espécies que precisam de pouca terra e possuem raízes menos agressivas, evitando danos à estrutura da casa.
As plantas ficam sobre um bidim, um tipo de material geotêxtil que permite o desenvolvimento das raízes sem necessidade de grandes quantidades de solo. Com essa técnica, ele consegue cultivar vegetação no telhado utilizando pouquíssima terra e sem comprometer a segurança da construção.

Foto: Maria Alex Botansen
Redução da temperatura
O principal objetivo do telhado verde é reduzir o calor dentro da casa. Para demonstrar o efeito da estrutura, Luis pega um termômetro e mede a temperatura próxima ao telhado de outra casa sem o teto verde.
“Aqui em cima está marcando 33,9°C”, mostra.

Foto: Maria Alex Botansen
Em seguida, ele mede a temperatura na parte coberta pelo telhado verde.
“Aqui embaixo está 27,8°C.”

Foto: Maria Alex Botansen
Segundo ele, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) já realizaram experimentos na residência.
“A gente colocou sensores no telhado e dentro da casa. Em um dia de verão muito forte, tivemos uma diferença de até 15 graus”, conta.
O futuro é verde

Foto: Maria Alex Botansen
Hoje, Luis transforma a experiência pessoal em um trabalho de conscientização ambiental dentro das favelas.
“Eu comecei a pesquisar muito sobre telhados verdes e hoje levanto a bandeira dos telhados verdes periféricos”, afirma.
Ele conta que já realiza palestras em universidades e escolas e participa, neste ano, de um projeto da Fiocruz chamado PEAT, desenvolvido em parceria com oito escolas. O grupo promove oficinas sobre sustentabilidade, ambientalismo e telhados verdes.
“A gente faz esse trabalho de formiguinha, levando informação”, diz.
Para Luis Cassiano, o objetivo do Teto Verde é claro.
“Eu vou ficar feliz quando eu montar uma empresa para capacitar jovens, para fazer mais telhados verdes, para a favela também ganhar dinheiro com isso“, afirma.
Ele acredita que iniciativas como essa são urgentes diante do avanço das mudanças climáticas.
“É necessário diminuir o calor das favelas, e fazer a coisa acontecer de dentro para dentro, não de fora para dentro.” Conclui.
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