Filho de costureira aprovado em mestrados internacionais dá dicas a vestibulandos
Era horário de pico num metrô lotado do Rio de Janeiro quando José Ricardo Araujo, 24, voltava do trabalho e abriu o portal da Johns Hopkins University, tradicional universidade americana, no celular. Ele tinha feito um combinado consigo mesmo durante o trajeto: só abriria o resultado se conseguisse sentar no vagão — algo improvável naquele horário. Conseguiu. Abriu o site. E começou a chorar ali mesmo, no meio dos passageiros.
“As pessoas em volta provavelmente acharam que tinha acontecido uma tragédia”, lembra ele, rindo. “Mas era justamente o contrário.”
A cena, digna de Hollywood, aconteceu no início deste ano e marcou o momento em que a ficha do jovem realmente caiu. José Ricardo, filho de costureira, natural de São João de Meriti (RJ), havia sido aceito em um dos programas de pós-graduação mais concorridos do mundo.
E não era só a Johns Hopkins: ao longo de alguns meses, vieram aprovações também na King’s College London (Reino Unido), Tufts University (EUA), na Hertie School (Alemanha), na Stellenbosch University (África do Sul) e no programa conjunto do Bard College com a Central European University (EUA e Áustria).
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Todos na área de Ciência Política e Relações Internacionais, com foco em transição energética e geopolítica dos minerais críticos. José optou pela Johns Hopkins mesmo: já está matriculado e deve embarcar em breve para Baltimore, nos EUA. O jovem está arrecadando dinheiro em uma vaquinha online, e também se inscreve em bolsas filantrópicas para auxiliar os custos.
O GUIA DO ESTUDANTE conversou com José Ricardo para saber mais sobre a sua trajetória inspiradora e também descobrir os conselhos que ele dá para quem quer seguir os mesmos passos.
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No início, as sementes
A mãe de José trabalha costurando enxovais de bebê, o pai atravessa um período de desemprego. O jovem faz parte da primeira geração da família a ter concluído o ensino superior. Segundo ele, para quem cresce em uma realidade como essa, em um município com pouco menos de meio milhão de habitantes, era difícil imaginar grandes horizontes acadêmicos. Quem dirá, fora do país.
“Parecia algo reservado para outras pessoas, pessoas de outros contextos e outras condições financeiras”, diz ele.
Toda a sua educação havia sido na rede pública. No Ensino Médio, ingressou no Cefet/RJ, para o técnico em Edificações — queria cursar Engenharia Civil, inicialmente. Dividia o tempo entre as aulas do colégio e as de um curso pré-vestibular, que estudava com uma bolsa de 100%. O esforço era conseguir uma vaga de Engenharia em uma universidade pública, curso historicamente com altas notas de corte.
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“E eu passei anos acreditando que esse era o meu caminho”, relembra. “Só que, no último ano, algo mudou. Percebi que queria Relações Internacionais, uma mudança que parecia completamente aleatória”, conta.
Passado o choque (e o luto) por abrir mão de Engenharia, a escolha por RI plantou sementes que mais tarde germinariam. Na Semana de Calouros organizada pelo cursinho, participou de uma mesa-redonda com ex-alunos. Uma das convidadas era uma moça recém-aprovada para estudar Economia em Stanford e que, assim como ele, não vinha de família rica ou colégios de elite.
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“O que mais me marcou foi o fato de ela vir de uma realidade parecida com a minha”, conta. “Até então, estudar fora parecia algo abstrato, distante, quase como uma história que eu via acontecendo com outras pessoas. Ouvir alguém que compartilhava referências parecidas com as minhas mudou muito a forma como eu enxergava o meu próprio futuro.”
A primeira viagem e a virada de perspectiva
Com esse foco já em mente, passou a pesquisar programas sociais e bolsas de estudo que o levassem para estudar fora — nem que fosse por apenas poucas semanas. Algum tempo depois, em 2019, foi aprovado na Latin American Leadership Academy (LALA), programa internacional que seleciona estudantes latino-americanos, do Ensino Médio ou recém-formados, com interesse em liderança, empreendedorismo social e educação global, para um programa intensivo de duas semanas.
Em sua primeira viagem internacional, José embarcou para o México, onde conheceu outros jovens brasileiros de origens semelhantes à sua que já estudavam fora ou se preparavam para isso. Sentiu o impacto imediatamente.
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“Percebi que o principal obstáculo não era falta de capacidade, mas a sensação de que aqueles espaços não pertenciam a mim. A partir dali, estudar fora deixou de ser um sonho distante e passou a ser uma meta concreta. Algo difícil, mas possível.”
Concluído o Ensino Médio em abril de 2021 (o atraso, em razão da pandemia), prestou o Enem e, enfim, garantiu sua vaga na universidade pública em 2022. Foi aprovado em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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Caminhos convergindo

Durante a graduação, desenvolveu pesquisas sobre o papel do Brasil nas cadeias globais de minerais estratégicos — recursos como lítio e cobalto, essenciais para baterias, turbinas eólicas e veículos elétricos. Lembra do técnico em Edificações e o interesse em Engenharia? É como se os dois mundos tivessem se encaixado. O Brasil, um dos países mais ricos nesses materiais, ocupa uma posição estratégica na disputa geopolítica que envolve o clima e a energia.
Em abril de 2025, tornou-se estagiário no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), um think tank (organização dedicada à produção de pesquisas, análises e propostas sobre temas políticos, econômicos, sociais ou científicos), onde atua desde então em projetos de transição energética, comércio global e cooperação internacional. Atualmente, no cargo de Analista de Projetos.
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Paralelamente, passou também a integrar o Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (EGN), com foco em África Subsaariana, onde escreve análises geopolíticas sobre a região, publicadas posteriormente pelo núcleo.
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Novos caminhos
Em 2026, já formado pela UFRJ e efetivado no CEBRI, integrou o time Jovens de Energia da plataforma EnergyC, programa que seleciona jovens que atuem ou pesquisem na área de energia para receber mentorias e capacitações.
O sonho de estudar fora continuava pulsando em José — nunca parou, na verdade. Assim que concluiu a graduação, voltou a pesquisar bolsas de estudo para continuar os estudos em outro país, agora com foco em um mestrado.
A primeira resposta positiva chegou justamente da Hertie School — universidade cujo concurso de redação ele havia vencido meses antes. “Acordei com a notificação no celular. Era um e-mail e o próprio título começava com ‘Congratulations’. Fiquei em choque, pensando: como assim? Aconteceu mesmo?”, recorda.
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Mas foi a aprovação na Johns Hopkins que fez a ficha cair de vez — e que rendeu a cena do metrô descrita no começo desta reportagem. Depois de chorar no vagão lotado, José esperou até a noite para contar aos pais. “Quando contei, virou uma comemoração na casa inteira.”
No total, foram seis aprovações em universidades de três continentes. Uma conquista que, para ele, também carrega um recado coletivo: o de que estudantes formados integralmente em instituições públicas brasileiras conseguem competir — e ser escolhidos — nos processos seletivos mais disputados do mundo.
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Nada é definitivo

“Quando estamos estudando para o vestibular, parece que qualquer escolha vai definir o resto da nossa vida para sempre. Isso coloca uma pressão muito pesada”, reflete o futuro mestrando. Ele acredita que é justamente um exemplo vivo do contrário: entrou no Cefet querendo ser engenheiro, virou pesquisador de Relações Internacionais, e hoje vê os dois mundos se cruzando no trabalho.
“Os caminhos que parecem ‘desvios’ acabam fazendo todo o sentido depois. Acho que não devemos ter medo de recalcular a rota. Não é indecisão, nem fraqueza, faz parte do processo de descobrir quem você é e onde consegue gerar impacto.”
José brinca que, se pudesse voltar no tempo para a noite anterior à prova do Enem, diria para si mesmo ter mais calma — e confiança.
“Falaria para tentar lembrar com clareza do porquê você está fazendo aquilo. Não só para entrar em uma universidade, mas para construir a vida que você quer ter, os lugares que quer conhecer, os temas com os quais quer trabalhar. Quando você entende isso, o vestibular deixa de parecer um monstro e passa a ser um caminho. Não é o fim da vida, é só uma ponte entre quem você é hoje e quem você deseja se tornar.”
Para quem sonha em um dia estudar fora, o jovem também tem uma mensagem clara. “Não tenha vergonha de dar a cara a tapa. Se candidatem a oportunidades, falem dos seus sonhos, ocupem espaços, mesmo quando bater a insegurança. Porque ninguém começa pronto. Muitas vezes, a coragem vem depois da tentativa, não antes dela”, conclui.
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