A inesperada origem da palavra “torcedor”
Você já parou para pensar de onde veio a palavra “torcedor“? No Brasil, ela é tão natural que ninguém questiona. Ela vem de “torcer”, claro, mas a etimologia do termo esconde uma história bem curiosa — e derruba uma das lendas mais repetidas do futebol brasileiro.
A versão que circula há décadas é uma bem charmosa. Nos primeiros anos do século 20, quando o futebol ainda era um esporte da elite no Rio de Janeiro, as damas da alta sociedade iam aos jogos do Fluminense de vestidos longos e luvas de renda. Com o calor carioca, elas retiravam as luvas, e, nos momentos de tensão, as torciam ansiosamente entre as mãos.
O escritor Henrique Maximiano Coelho Netto, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e pai de dois jogadores do clube, teria chamado essas mulheres de “torcedoras” em uma crônica, e o termo teria se espalhado para designar todos os que acompanhavam o esporte.
Seria essa, então, a origem da palavra. No entanto, algumas pesquisas mais recentes refutam a ideia.
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Balde de água fria
Em 2016, o professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), publicou na Revista Internacional d’Humanitats o artigo “Reavaliando a fraseologia I — a origem das expressões: ‘torcedor’, ‘bater papo’ e ‘será o Benedito?’“. Ao vasculhar arquivos históricos de jornais e revistas, ele não conseguiu localizar a tal crônica de Coelho Netto sobre as “torcedoras”.
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O escritor Carlos Santoro chegou à mesma conclusão no livro “Fluminense somos todos nós”. A crônica supostamente existe, mas nunca é incluída literalmente nos textos que apoiam essa versão da origem.
E, claro, não podemos ignorar o fato de que o verbo “torcer”, com o sentido de “querer” ou “desejar” que algo aconteça, já constava em registros brasileiros bem antes de o Fluminense ser fundado — e antes mesmo de o futebol ter chegado ao país de forma organizada. Isto é, quando as damas iam aos jogos, nas décadas de 1910, 1920, a palavra já agregava o seu sentido literal (torcer as luvas) e figurativo (torcer pelo time).
Segundo o professor Ari Riboldi, autor do livro “Cabeça-de-bagre: termos, expressões e gírias do futebol”, “torcer” termo vem do latim torquere, que significa torcer, distorcer, desvirtuar, torturar e atormentar. Dessa raiz veio o verbo português “torcer” em toda a sua extensão: torcer um pano, torcer o pescoço — e, metaforicamente, torcer o destino a seu favor, querer tanto que algo aconteça a ponto de contorcer o próprio corpo.
Há registros do termo em uso já em 1894, como nesta crônica de Urbano Duarte de Oliveira, um dos membros fundadores da ABL, para o periódico carioca “O Paiz”. No texto, ele brinca justamente com alguns usos da palavra “torcer”, utilizando-a como uma descrição para o ato de desejar, manifestar, esperar algo tão fortemente que parece que o próprio corpo se torce, por fora e por dentro. Veja um trecho da crônica.
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Um amador de corridas torce para o seu cavallo vencer, embora elle venha em 4º ou 5º logar. O frequentador de frontões torce afim de que o pelotar em que apostou ganhe a quiniela. O comprador de bilhetes da loteria torce para que a machina Fichet componha o seu numero.
A moça solteira torce, torce, até que certo rapaz louro a namore.
No bond, aquelle sujeito que senta no ultimo banco torce, torce, até que a bella visinha da frente lhe lance uma olhadela…
Todos vivemos sempre a torcer, no intuito de conseguirmos qualquer coisa.
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Origem coletiva
O futebol organizado chegou ao Brasil com o paulistano Charles Miller, que desembarcou com bolas e regras na bagagem em 1894 e organizou o primeiro jogo oficial em 1895, mas só viraria febre popular alguns anos depois. O próprio Fluminense foi fundado em 1902, e somente em 1919 teve o seu primeiro estádio (um dos pioneiros do tipo no país). A hipótese mais aceita é que a palavra “torcedor” não tenha nascido nas arquibancadas, como reza a lenda das luvas, mas chegou lá vinda de outro lugar.
O mais provável é que tenha sido o resultado de uma evolução natural do termo, vinda da oralidade, com a adição do sufixo -dor, muito comum na formação de palavras que expressam ações (jogar → jogador).
A palavra é exclusiva do português brasileiro. Em Portugal, diz-se “adepto“. Nos países de língua espanhola, “hincha” — derivado de “inchar”, como se o corpo inteiro reagisse ao jogo, uma torcida é uma “hinchada”. Em inglês, “fan“, abreviação de “fanático”.
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É como se cada língua tivesse escolhido uma metáfora para descrever quem acompanha um esporte. O Brasil escolheu a de quem se contorce de ansiedade.
A cena das damas com luvas pode até ter acontecido, e pode ter ajudado a fixar o termo no vocabulário do futebol. Mas a palavra já circulava e já carregava o significado que conhecemos, fruto de um processo lento e coletivo, sem um único autor ou uma cena fundadora.
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