Comunidade de Seabra mantém tradição das bandas de pífano na Chapada Diamantina
Na zona rural da Chapada Diamantina, o som do pífano continua presente nas celebrações religiosas e nos encontros comunitários. Na comunidade de Lagoa da Boa Vista, no município de Seabra, as bandas de pífano permanecem como uma das principais expressões culturais locais, mantendo a tradição.
Conhecido também como pife, o instrumento de sopro faz parte da cultura popular nordestina e reúne diferentes influências culturais. A tradição brasileira do pífano carrega elementos europeus adaptados pelos povos originários, principalmente na fabricação em bambu, além das contribuições africanas nos ritmos e na percussão que acompanham as apresentações.
Em Lagoa da Boa Vista, a tradição está ligada às manifestações religiosas da comunidade. Novenas, cortejos e festejos católicos continuam sendo os principais espaços de preservação dessa prática cultural. Foi justamente nesses momentos religiosos que muitos moradores tiveram os primeiros contatos com o instrumento.
O músico Genelício Joaquim relembra que a relação da comunidade com o pífano nasceu dentro das celebrações de São Francisco de Assis, padroeiro local. “Naquele tempo já havia a novena de São Francisco de Assis, que é o padroeiro daqui da Lagoa da Boa Vista. Para acompanhar o ramo — como o pessoal chama —, que era levado até a igreja e depois trazido de volta, a gente costumava passar de casa em casa, cada dia em uma casa diferente. Então a gente ia acompanhando, tocando com o pífano. Foi aí que surgiu essa banda”, conta.
Além das festas religiosas, o aprendizado do pífano também acontecia de forma espontânea, no cotidiano da comunidade. Segundo Genelício, a infância na roça foi marcada pelas brincadeiras coletivas e pela criação dos próprios brinquedos e instrumentos.
“Tinha uns terreiros perto de casa, e os meninos mais velhos vinham ajudar meus pais. Enquanto isso, nós íamos brincar nos terreiros. Naquela época, a gente mesmo fazia os próprios brinquedos; não era como hoje, que já se compra tudo pronto. Então eu inventei de fazer o que, naquela época, acho que chamavam de ‘engate’, parecido com um pífano. Fiz esse instrumento e comecei a brincar com a turma. No começo, eu só soprava, sem saber direito, mas depois fui aprendendo. E nunca mais deixei de tocar até hoje”, afirma o músico.
Com o passar dos anos, a tradição das bandas de pífano ganhou maior reconhecimento dentro do município. Os grupos passaram a participar de apresentações públicas, festas juninas e eventos culturais, ampliando a visibilidade dessa manifestação popular.
Apesar da importância cultural da prática, moradores demonstram preocupação com a continuidade da tradição entre os mais jovens. O professor aposentado Izaque Rodrigues destaca a necessidade de transmitir os conhecimentos para as novas gerações. “Os novos não estão querendo, então isso dificulta muito. Então eu vejo uma importância muito grande em ensinar e focar na tradição, porque é uma cultura muito importante e a gente não pode deixar perder”, afirma o professor.
Mesmo diante das mudanças sociais e culturais ao longo dos anos, a comunidade segue mantendo a tradição do pífano. O lavrador Henrique Medeiros conta que o interesse pelo instrumento surgiu ainda na infância, durante os festejos religiosos da comunidade. “Eu me interessei quando ia para a igreja, vendo e ouvindo a banda tocar. Me chamava atenção ver as pessoas entrando na brincadeira, deixando a apresentação mais alegre”, destaca Rodrigues.
As manifestações culturais proporcionadas pelas bandas de pífano de Lagoa da Boa Vista representam a preservação da memória coletiva, da religiosidade e da identidade cultural da população rural na Chapada Diamantina.
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