Review: Mixtape mostra como a vida de adolescente era maneira antes do TikTok
Em tempos onde a nostalgia é uma arma poderosa de marketing, os remakes, remasters e grandes franquias dominam o mercado de games. No entanto, o time do estúdio Beethoven & Dinosaur resolveu atacar esse sentimento de forma diferente com Mixtape, que chega hoje (7) ao PC, PS5, Xbox Series S e X, bem como no Nintendo Switch 2.
O game a companha um trio de adolescentes nos anos 90 durante seu último dia juntos no ensino médio. Embalado por uma trilha sonora marcante, Mixtape traz foco em história durante uma experiência curta, mas que é muito marcante.
Entre outros jogos protagonizados por adolescentes, como a franquia Life is Strange, o título de destaca pela escrita de qualidade e por ser a síntese da frase “no meu tempo que era bom” para muitos millenials. Afinal, em um mundo com “Six Seven”, Mixtape prova como era maneiro ser adolescente nos anos 90 e 2000, sem internet o tempo todo.
Um passeio por memórias (suas e dos personagens)
A história de Mixtape é centrada em Stacey Rockford, uma adolescente apaixonada por música que está se preparando para ir até Nova York para tentar a vida no mercado do entretenimento. No entanto, antes de partir, ela monta uma playlist analógica, já que não existia Spotify, para o seu último dia com os melhores amigos, Cassandra e Slater.
Ocasionalmente quebrando a quarta parede, a protagonista nos apresenta suas memórias ao lado da dupla em uma cidade do interior nos anos 90. Ou seja, estamos falando de um tempo sem internet ilimitada e de um local que claramente não conta com muitas opções de diversão para os jovens.

Aqui, entra em ação a clássica frase: “mente vazia, oficina do diabo”. Durante cada capítulo, que praticamente é um clipe musical, vemos o trio vivendo rebeldias clássicas de adolescentes, incluindo beber sem permissão, fugir da polícia e invadir locais – tudo com um humor familiar e exagerado que lembra o estilo de produções como Todo Mundo Odeia o Chris.
Se você já perdeu a tampa do dedo jogando futebol na rua, fugiu de casa para sair com os amigos ou deu um beijo bem estranho, com certeza também vai reviver boas memórias enquanto joga Mixtape. Como os protagonistas são bem imaginativos, o jogo exagera em certas memórias propositalmente, bem no estilo de “história de mentiroso”, mas as situações apresentadas são bem realistas.
Toda a rebeldia também é embalada com uma narrativa que mostra os anseios de crescimento de cada um dos três protagonistas. Slater vive numa boa, enquanto Cassandra precisa viver com a pressão constante dos pais e Stacey lida com a decepção de deixar os amigos para trás antes do esperado.

O jogo também traz um policial, que é pai de Cassandra, como um grande antagonista – que na verdade só parece um adulto preocupado. Com isso, Mixtape mostra que, assim como na vida, o maior vilão da história acaba sendo o tempo.
Essa combinação de rebeldia, emoção e diversão garante uma história única para Mixtape. Apesar de narrativa ser curta, o jogo me deixou sorrindo do início ao fim, entregando exatamente o que se propõe. Para quem curte jogos com foco em história mais contemplativos, com personagens cativantes e um estilo artístico único, é um prato cheio.
Gameplay mistura filme interativo com variedade
A história de Mixtape me faria jogar qualquer série teen da Netflix embaixo de um caminhão. No entanto, o seu grande trunfo está em misturar a narrativa engajante com um gameplay que surpreende.
Durante cada capítulo, o jogador embarca em uma música escolhida por Stacey e vive cada momento da experiência, que se adapta de acordo com a "vibe". Em alguns casos, você anda de skate descendo uma ladeira e precisa desviar de caros, por exemplo.
No entanto, em outra faixa, Stacey transporta o jogador para o seu primeiro beijo, onde é preciso controlar as línguas de dois adolescentes durante o ato. Plataforma, esporte, tiro: o jogo entrega de tudo um pouco para garantir interatividade no meio da história.
Em alguns trechos, o game também conta com exploração mais aberta, o que garante uma onda de referências aos anos 90. Entre fitas VHS e até um clone do Game Boy Camera, o jogo capricha na imersão.

É importante ressaltar, no entanto, que cada trecho de gameplay é relativamente curto: eu completei toda a minha jornada em Mixtape em cerca de três horas. No entanto, existe um fator replay peculiar no jogo.
Você pode voltar a qualquer momento para os capítulos do game, que são divididos em faixas musicais. Com isso, praticamente cada sessão do jogo é um clipe musical interativo, onde você controla algumas partes das sequências orquestradas.
Logo após terminar o jogo, por exemplo, eu voltei para uma parte que me encantou e eu sabia que ia tirar risadas (e nostalgia) da minha esposa. Não só isso, também anotei partes do jogo que pretendo mostrar para os meus amigos em um futuro rolê aqui em casa, pois são muito divertidas.
Mesmo fora de contexto, algumas partes de Mixtape são simplesmente pura arte, o que compensa a curta duração. Além disso, o título também conta com uma bela quantidade de desafios, o que incentiva você a retornar para fases passadas se quiser platinar o game.
Trilha sonora e visuais impecáveis
Além da experiência divertida de jogar, Mixtape também é ótimo de se ver e ouvir. Desde que foi apresentado, o game publicado pela Annapurna Interactive conta com a trilha sonora como um dos principais pontos de marketing.
A experiência inclui bandas conhecidas como Smashing Pumpkins e The Cure. No entanto, o que realmente me agradou foram as bandas que eu não conhecia. O “poder” da protagonista de casar músicas com situações faz com que o jogo seja uma ótima porta de entrada para diversos hits dos anos 70 e 80.
Os visuais do jogo também ajudam a engrandecer a trilha sonora. Mixtape mistura muito bem o gameplay linear com as músicas, trazendo momentos orquestrados que garantem cenas marcantes.
Os gráficos do jogo também seguem um estilo cartunesco que combina muito bem com a proposta do gameplay. Em poucos momentos, acabei me deparando com bugs, mas nada que comprometesse a experiência como um todo.

Como recebemos uma cópia de PC, tive a chance de testar o jogo em dois cenários: em um desktop com a RTX 5080 e um Steam Deck. Em ambos os casos, o game rodou em uma qualidade satisfatória e não decepcionou. Ainda assim, minha recomendação é jogar com um headset de qualidade ou em uma Smart TV com soundbar para garantir a melhor qualidade técnica.
Um jogo que bate diferente nos millennials
Além de funcionar muito bem como jogo, Mixtape também pode servir como um grande catalisador de memórias para quem cresceu nos anos 90 e 2000 – os millenials. Não só isso, para quem é adolescente atualmente, o título mostra como os adultos de hoje, que já são pais, também podiam ter um lado “selvagem”.
Durante toda a jornada com Stacey e seus amigos, o jogo mostra como as memórias da adolescencia podem ser enganosas, tornando diversões e também traumas muito maiores do que o normal. Ainda assim, durante a minha experiência, Mixtape também serviu para mostrar o contraste entre como era crescer antigamente e hoje em dia.

Mais do que nostalgia, Mixtape também é um jogo sobre criar memórias, mesmo que isso envolva cometer erros. Em um mundo sem um feed infinito do TikTok, múltiplas séries na Netflix e jogos infinitos, era mais fácil para os jovens saírem fazer amigos e viverem pequenas aventuras.
E eu falo por experiência própria: assim como os protagonistas, eu vivi em uma cidade do interior com acesso escasso à internet, o que me obrigava a fazer trilhas, jogar bola na rua, estourar rojões e, ocasionalmente, até fugir de casa com os amigos pra beber.
Enquanto boa parte disso é moralmente errado, também é a prova de que momentos estavam sendo vividos. E, no fim das contas, mesmo com esses, eu consegui dar certo na vida – ou, pelo menos, me tornar um adulto funcional.
Não estão dizendo para a “Geração TikTok” sair metendo o louco por aí, mas para quem jogar Mixtape, vale a pena refletir sobre uma mensagem importante do jogo: estou vivendo ao máximo cada momento com as pessoas que amo? Dependendo da reposta e do momento, vale a pena fechar esse texto, mandar uma mensagem para os amigos e marcar um rolê para reviver os velhos tempos – ou criar novas memórias para serem lembradas com carinho ao som de uma boa música no futuro.
Vale a pena?
Mixtape é um daqueles jogos raros que parecem feitos para te abraçar. Em apenas algumas horas, ele entrega uma experiência divertida, emocionante e extremamente humana, usando a nostalgia não como muleta, mas como ferramenta para falar sobre amizade, crescimento e despedidas. Com personagens carismáticos, gameplay criativo e uma trilha sonora impecável, o game da Beethoven & Dinosaurs acerta em cheio ao transformar memórias simples em algo grandioso.
Mas o que realmente faz Mixtape bater diferente é a sensação de que tudo aquilo poderia ter acontecido com você. As brincadeiras idiotas, os medos adolescentes, os rolês improvisados, os erros sem pensar nas consequências e até aquela tristeza silenciosa de perceber que alguns momentos nunca vão se repetir. O jogo entende perfeitamente que crescer também significa deixar partes importantes da vida para trás — e talvez por isso ele possa emocionar tanto.

Mixtape não é só sobre os anos 90 ou sobre como a adolescência parecia mais livre antes das redes sociais. É sobre aquelas pessoas que marcaram a sua vida quando tudo ainda parecia infinito. Sobre amigos que você jurava que teria por perto para sempre. Sobre músicas que funcionam como máquinas do tempo. E sobre perceber, já adulto, que algumas das melhores noites da sua vida aconteceram sem você saber que eram especiais naquele momento.
Mixtape lembra que algumas das melhores noites da sua vida aconteceram sem você saber que eram especiais naquele momento.
Quando os créditos subiram, eu fiquei com aquela sensação agridoce de quem terminou uma viagem muito importante. Não apenas porque Stacey, Cassandra e Slater se despedem, mas porque Mixtape também faz você revisitar versões antigas de si mesmo que talvez estivessem esquecidas há anos. E poucos jogos conseguem fazer isso com tanta honestidade.
Se você cresceu nos anos 90 ou 2000, Mixtape provavelmente vai arrancar risadas, nostalgia e talvez até algumas lágrimas sinceras. Já para quem nasceu na era do TikTok, fica quase como uma cápsula do tempo de uma juventude menos conectada, mas talvez mais presente.
Assim como uma música, Mixtape não é longo, mas traz um grande impacto. Para quem gosta desse tipo de jogo, assina o Game Pass ou tá com grana pra comprar, o jogo é uma playlist interativa que vale a pena escutar (e jogar).
Nota do Voxel: 100
Pontos positivos
- Narrativa emocionante e extremamente humana
- Personagens carismáticos e bem escritos
- Trilha sonora impecável, com músicas que elevam cada cena
- Gameplay variado e criativo, evitando repetição
- Excelente uso da nostalgia sem parecer forçado
- Direção artística marcante e cheia de personalidade
Pontos negativos
- Duração muito curta pode incomodar alguns jogadores
Uma cópia de Mixtape foi cedida pela Annapurna para review. E aí, o que achou da análise?



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